segunda-feira, 18 de setembro de 2017

As bancas de revistas estão desaparecendo

Foto reproduzida do site: yelp.com.br e postada pelo blog 
“Meio Impresso”,   para ilustrar o presente artigo.

Texto publicado originalmente pelo Portal Infonet, em 18/09/2017.

As bancas de revistas estão desaparecendo.
Por Ivan Valença.

Já não vai distante no tempo o fato de Aracaju ser povoada de bancas de revistas, que além de vender revistas e jornais durante todo o dia, também vendiam guloseimas, como pastéis, picolés e refrigerantes. Era o ponto de encontro para muitos senhores que não perdiam a chance de trocar ideias com quem chegasse, trazendo novidades. Hoje, as bancas de revistas como que desapareceram. Não são mais pontos de encontro, nem vendem revistas famosas ou simples histórias em quadrinhos. Muitas delas fecharam as portas ou simplesmente passaram o ponto adiante. Preferem negociar com outras coisas, não mais com veículos de imprensa. As revistas e jornais parecem não interessar muito a esses negociantes que deixam vazios pontos de vendas antes tidos como locais interessantes. Não é por falta de interesse na leitura, porque as revistas enquadradas neste item, continuam vendendo bem. Um desses ex-proprietários de bancas de revistas explicava dizendo que o chamado “ponto” das bancas de revistas ficaram muito caros. E a movimentação em torno delas diminuiu muito. Mesmo em cidades do interior, as venda em bancas de revistas também caíram e muitos donos pensam em trocá-los ou simplesmente vendê-los. As vendas ou trocas dos chamados “gibis” que eram alavancados por negócios em segunda mão, também hoje estão zeradas. A gurizada parece não estar vendo as revistas que são feitas para eles...

Texto reproduzido do site: infonet.com.br/blogs/ivanvalenca 

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Imprensa Oficial de Sergipe completa 122 anos.

Do impresso ao digital


Texto publicado originalmente no site da Segrase, em 22/08/2017

Imprensa Oficial de Sergipe completa 122 anos.

Além de revelar aspectos da vida política do Estado, ela também se apresenta como a construtora de uma narrativa para a nossa Sergipanidade.
  
Veículo de comunicação autorizado a emitir periódicos e outras publicações de divulgação de decisões e comunicados oficiais do governo estadual, a Imprensa Oficial do Estado de Sergipe celebra 122 anos de existência nesta quinta-feira, 24 de agosto. Além de revelar aspectos da vida política do Estado, ela também se apresenta como a construtora de uma narrativa para a nossa Sergipanidade.

A história da Imprensa Oficial do Estado de Sergipe, se inicia a partir da Lei 104, idealizada em 5 de dezembro de 1894, por Manoel Prisciliano de Oliveira Valadão. Sancionada em 24 de agosto de 1895, esta lei permitiu, somente em 1º de setembro do mesmo ano, a circulação do primeiro Diário Oficial de Sergipe.

Em 1919, o Brasão do Estado criado pelo professor Brício Cardoso, passa a ser estampado nos periódicos. Além das publicações e comunicados oficiais do Estado, o Diário reproduzia assuntos culturais, sociais, entre outros.  Após alguns anos de sua impressão, o governador Lourival Batista, por meio de decreto de Lei, transforma a Imprensa Oficial em Empresa Pública, a atual Serviços Gráficos de Sergipe (Segrase).

Interação entre as instituições

Por meio do Dário Oficial do Estado de Sergipe, a Imprensa Oficial permitiu que houvesse interação de todos os atos dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como do Tribunal de Contas do Estado, Procuradoria Geral de Justiça e Defensoria Pública do Estado para com a sociedade.

Segundo o Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro, esta interação entre as instituições é uma demanda do tempo presente e não acontecia no passado com a presteza de hoje. “À medida que as comunicações se intensificavam e que a sociedade ia se dinamizando, com a reorganização do espaço público, por exemplo, e os reordenamentos jurídicos advindos das inúmeras constituições que tivemos, passou-se a ser necessária uma maior interação, capitaneada pelo crescimento das novas formas de comunicação midiática e o aumento da celeridade da propagação das informações, seja impressa, seja digital”, explica.

Acontecimentos históricos

O Diário Oficial cobriu dois dos acontecimentos mais importantes do nosso país em diferentes épocas. Noticiou os conflitos da Guerra de Canudos com coberturas diárias e correspondências com outros jornais até o extermínio do bando de Antônio Conselheiro, e ainda, a visita, em 1933, do Presidente da República, Getúlio Vargas, que percorria todo o país, ao estado de Sergipe, ocasião em que criou a Associação Sergipana de Imprensa – ASI.

Modernização

Com a necessidade de se ter uma comunicação oficial mais acessível e acompanhando a evolução tecnológica, em 21 de junho de 2012, por meio de um decreto assinado pelo ex-governador Marcelo Déda, o Diário Oficial entra de vez no mundo virtual, sendo lançado oficialmente em 03 de dezembro de 2012.

A partir do mês de agosto de 2017 a Segrase está iniciando o processo de digitalização de todas as edições do Diário Oficial de Sergipe, numa parceria com a Universidade Tiradentes (Unit). Ao todo, serão mais de cem anos de história disponibilizados para o público de forma rápida e acessível, podendo ser adquirida em qualquer lugar do mundo.

Para o Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro, esta iniciativa vem ao encontro dos anseios de pesquisadores, mas também representa a salvaguarda de parte representativa da memória sergipana. “Além de facilitar o acesso à informação, hoje, de importância histórica, colabora para a proteção da materialidade do impresso, frente a seu desgaste temporal. Acredito que a iniciativa, uma vez concretizada, garantia que novas páginas da História de Sergipe sejam escritas, dinamizando a pesquisa, também, em outras áreas do conhecimento humano”, afirma.

O atual presidente da Segrase, Ricardo Roriz, reconhece a importância da Imprensa Oficial e destaca que, a partir da digitalização destas edições do Diário, as informações estarão mais acessíveis à população. “É evidente que toda a trajetória da Imprensa Oficial contribuiu com a evolução política, econômica e social de Sergipe. Desde sua fundação, ela vem mantendo e aprimorando seu padrão de qualidade e seu compromisso com a informação e com a transparência, e agora, com a digitalização de todas as edições, será permitindo que todos o acessem de forma rápida e democrática”, destaca.

Texto reproduzido do site: segrase.se.gov.br

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Wilson Figueiredo: O jornalismo é um exercício literário


Wilson Figueiredo: O jornalismo é um exercício literário.

Francisco Ucha, em 17|02|2014.

Conversar com Wilson Figueiredo é um prazer. Entrevistá-lo, contudo, requer dose extra de atenção. Primeiro, para não perder o fio da meada das histórias que brotam em profusão de sua memória prodigiosa. Acumuladas ao longo de seus 88 anos de vida, elas não são poucas. Nem simplórias. Segundo, porque, vez ou outra, ‘seu’ Wilson, como costuma ser carinhosamente chamado pelos colegas mais jovens que com ele trabalham na FSB Comunicações, tenta inverter os papéis. Da condição inicial de entrevistado, passa a interpelar o entrevistador. Coisa de instinto. Postura de jornalista que, experiente, sabe elaborar perguntas num misto de provocação e doçura.

Do início de sua carreira muito já foi publicado, inclusive em outra entrevista concedida ao ABI Online, no ano de 2006. Nascido em 28 de julho de 1924, na cidade de Castelo, no Espírito Santo, ainda adolescente ‘Figueiró’ – apelido que lhe foi dado pelo amigo Hélio Pellegrino – adquiriu o espírito de um Estado vizinho. “Me sinto mineiro, pois Minas é um vício. Passou por lá, pega”, já declarou. Foi na capital, Belo Horizonte, que ingressou pela primeira vez no ambiente profissional em que transitaria por décadas. Era a Agência Meridional, dos Diários Associados, que funcionava na Redação do Estado de Minas. O ano era 1944.

Com talento para a poesia manifestado na juventude, Wilson firmou-se mesmo no jornalismo. Sem exageros, é respeitado e considerado um mestre. Em meio aos mais jovens, rechaça com bom humor o peso da idade. Aliás, faz o percurso de sua casa, no Leblon, até o bairro de Ipanema, onde fica a FSB, quase sempre a pé. “Evito pensar que possa ser o mais antigo jornalista em atividade no País. Há de haver outro desgraçado, e ainda mais velho, por aí”, diverte-se. Tamanha bagagem mereceu o devido registro histórico com a edição do livro E a Vida Continua – A Trajetória Profissional de Wilson Figueiredo, lançado em 2011. A obra serviu de base para boa parte da pauta desta entrevista, ao lado de análises sobre o jornalismo atual. Wilson não quer viver apenas de recordar o passado. Olha para a frente.

Sobre o Wilson poeta, então pouco mais que um garoto, Mário de Andrade, um de seus inúmeros amigos no universo das letras, escreveu. “Meu caro Figueiró, acabo de ler seus versos. Você já é poeta, mas só não será poeta como constância de sua vida se não quiser. Se, quando você chegar aos 38 ou 40, lembrar que foi poeta e virou funcionário público, ‘argentinos’ de velhas de estações de águas, ou pai de família só, Figueiró, não bote a culpa na vida, o culpado será você.”

Se não seguiu carreira literária (será?), Wilson dedicou-se de corpo e alma ao jornalismo. Na definição do polêmico Nelson Rodrigues, sempre foi um poeta. Ele estava certo. O ‘Anjo Pornográfico’ soube enxergar toda a beleza contida no exercício profissional do colega. Pura poesia. 

Com vocês, ‘seu’ Wilson.

Leia no post abaixo, a entrevista concedida a Paulo Chico, publicada originalmente no Jornal da ABI 387, de fevereiro de 2013.

Texto e imagem reproduzidos do blog: doispontosblog.wordpress.com

Wilson Figueiredo


 Foto: Avanir Niko.

Foto: Folha de Minas (1953).

Wilson Figueiredo

“O que mais ajuda a democracia é a imprensa livre”

Aos 88 anos e em plena atividade, Wilson Figueiredo fala de sua trajetória profissional, recorda histórias do Jornal do Brasil, analisa o cenário da imprensa e deixa algumas lições para os colegas mais jovens. Como a de que o jornalismo pode e deve exigir acuidade de idéias. E não pode prescindir do amor ao texto.

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Entrevista concedida a Paulo Chico
Publicada no Jornal da ABI em fevereiro de 2013

O que está havendo com o jornalismo? Ou seria melhor perguntar o que não está havendo? Há uma crise de mercado?
Olha, eu nunca pensei nessa questão… (risos) O que eu sinto é que as pessoas ficaram meio alteradas. Há algumas que acham que acabou o jornalismo – e para essas o jornalismo é apenas o jornal. Para mim, o jornalismo não é o jornal. Ele já existia mesmo antes de haver o jornal. Ele existia antes disso. O jornal tornou-se veículo de uma coisa chamada jornalismo, que nada mais é do que uma plataforma, um meio de progressão da informação, do andamento das notícias, da difusão das idéias, dos costumes… Eu vi o rádio começar no Brasil. Eu era menino, mas me lembro deste começo, da sua expansão, das pessoas comprando os aparelhos, que vinham dos Estados Unidos. Só tínhamos estações no Rio e em São Paulo. Também naquela época disseram que o rádio iria matar o jornalismo impresso. Bobagem! Pelo contrário, o jornalismo ganhou foi um aliado…

Da mesma forma como disseram que o rádio agonizaria diante da televisão…
Exatamente. E tudo isso se resolveu naturalmente. Agora essa história se repete com a internet, com a chamada formação em rede. Ou seja, a tecnologia em questão pode até ser nova, mas essa história de fim do jornal impresso é velha pra caramba. Não tem nada de novidade! (risos) E, mesmo na crise, há quem encontre caminhos. Vejo os chamados jornais populares e os considero fascinantes! Antigamente, eles eram cheios de besteira, mas hoje são muito bem feitos, criativos mesmo. Entretanto, são veículos que não abordam com profundidade o noticiário político, que é o que mais me interessa. Mas eles atendem bem a um grande público! Encontraram um nicho de mercado.

Mas, como você vê o jornalismo de internet?
A criação de novos meios fez do jornalismo uma coisa maior do que ele é, e acabou por enriquecer e diversificar a prática. Agora, por outro lado, surgiu o amadorismo, no lugar do profissionalismo. Nesses ambientes há uma tendência que escapa ao princípio do jornalismo, que é a impessoalidade…

Hoje, todo mundo tem muita opinião sobre tudo…
É engraçado isso. Mas já acontecia assim antigamente. Na minha vida profissional, encontrei muitas situações em que empresários buscavam os profissionais de imprensa para que eles escrevessem artigos com as suas opiniões… “Se eu fosse jornalista diria isso e aquilo. Tipo: ‘esse ato do governo é um absurdo!’ Mas, você sabe, eu sou um empresário, não posso…” Aí, vinha logo a eterna desculpa: uma situação do tipo “eu quero ser Tarzan, mas não sei pular de uma árvore pra outra”… (risos) A imprensa hoje é muito melhor e mais profissional. O jornalista não pode fazer ‘o jogo’ de um banqueiro ou de um político – o que, você pode acreditar – acontecia abertamente! Nesse sentido, a imprensa melhorou muito. Até a prática de um jornalismo pessoal, em primeira ou terceira pessoa, sempre existiu. Os jornais sempre emitiram opiniões, os articulistas também. Só que agora, com uma tecnologia rica, esse direito foi dado a todos. O que é uma coisa maravilhosa. E perigosa.

Não seria possível pensar num equilíbrio?
Nunca mais o jornalismo, ou melhor, a informação, deixará de ser pessoal. Vamos precisar de tempo para acomodar isso um pouco melhor, mas não creio que conseguiremos resolver essa questão por completo. Sempre haverá notícia, informações, coisinhas pequenas, futricas, pessoas querendo esculhambar umas com as outras. Oposição e governo são duas coisas que nunca estão satisfeitas! Olha, o que nós temos, mais do que uma crise do jornalismo impresso, é uma crise do jornalismo. E mais do que isso: uma crise de quem lê o jornal… Esse sujeito está meio assustado! Alguns ficaram deslumbrados diante da possibilidade de entrar no jogo, isto é, de produzir ‘notícia’. E outros passaram a achar que nos jornais não há muita coisa interessante mais não… Era como se a notícia estivesse perdendo valor. Perceba que os jornais no Brasil nunca conseguiram conquistar um público maior. Um jornal que, há 60 ou 70 anos, tirasse 80 mil exemplares era mais importante do que um jornalão que rode 200 mil nos dias de hoje – afinal, ele era único, estava praticamente sozinho, competindo com um pouco de rádio, quase nada de televisão e zero de internet. Proporcionalmente, os jornais impressos perderam, sim, importância no Brasil. Mas a informação está aí, em maior volume do que nunca. Na verdade, nem damos conta de processá-la. O que mudou, portanto, foi a variedade dos meios de acesso.

E quais as tendências do jornalismo para o futuro?
O jornalismo, creio, ficará cada vez mais específico. O desafio é misturar velocidade com poder de análise. Vai ter que focar na conexão dos fatos, pois eles nunca acontecem isoladamente, não é?

Como explicar o fechamento de várias publicações? Só para falar dos mais recentes, tivemos o fim do Jornal da Tarde, do Marca, do Diário do Povo, em Campinas… Vivemos uma crise do jornalismo ou uma crise dos donos de jornal?
Os donos de jornal, antigamente, não eram negociantes. Eram políticos ou empresários ricos, que buscavam poder. O jornal é um poder. E isso continua a mesma coisa. O jornal não faz ninguém rico; ele dá prestígio ao sujeito para que faça negócios. Outra coisa: jornal não é uma mercadoria que se vende; o jornal é lido. Vou te dar um exemplo para contrastar com a sua pergunta: o Jornal do Brasil deixou de circular na versão impressa, mas sobrevive no ambiente digital. Ele preserva sua marca e, saiba você, tem um bocado de gente trabalhando lá. Parece até que estão contratando mais pessoas. Claro que não é mais ‘aquele’ JB. O jornalismo é anterior e superior a qualquer formato que se inventar – e eu ainda acho que teremos uma nova plataforma, diferente de tudo que está aí, uma coisa inédita, que ainda não sei o que será. O jornalismo se faz indispensável em qualquer meio e qualquer tempo. A construção do futuro depende do acesso à informação.

Falando em acesso à informação, qual sua visão sobre as tentativas de controle sobre a imprensa? Há no ar uma ameaça de volta velada à censura?
Há apenas três crimes que um jornalista pode cometer, no exercício de sua função: a injúria, a calúnia e a difamação. Todos eles de graus diferentes, mas basicamente a mesma coisa. Tirando os casos graves, como o de ofensas muito pesadas, quase ninguém recorre à Justiça, pois todos nós sabemos o quanto a memória humana é curta. É melhor esquecer, deixar passar, do que alimentar uma controvérsia. E dizem que o jornalismo abusa… Abusa coisa nenhuma! O que mais ajuda a democracia é o jornalismo, é a imprensa livre. As coisas não mudam porque o jornal as publica… Vou dizer uma coisa perigosa! Eu até acho que o jornalismo, hoje, não deixa as pessoas pensarem… A soma de informações descoordenadas é de tal natureza, e tão numerosa, que a maioria das pessoas com quem converso – e que têm acesso a jornais – não consegue processar aquilo que lêem… Mas, veja, o jornalismo vive um momento extraordinário que é o advento da informação. Onde você estiver, ela chega. Não há área proibida, mais. A censura começa a ficar impossível. Você pode até apreender um jornal impresso, mas policiar a internet fica mais difícil…

Mas o jornalismo online padece de alguns pecados, não é?
Ah, sim… Ele vai ficando cada vez mais leviano…

Houve, no final do ano passado, o caso em que o blog do Luís Nassif divulgou, com dias de antecedência, o falecimento do Oscar Niemeyer. Depois de noticiar a falsa morte, o próprio Nassif pediu desculpas aos leitores, dizendo que a sua equipe havia embarcado numa nota publicada num site clone de um grande jornal…
Foi um equívoco, não é? O que fiquei sabendo, neste caso, é que alguém ouviu mal… Correu a notícia de que o Oscar havia sido internado às pressas, depois de que teria alta e acabou voltando para a unidade intensiva… Nesta confusão, alguém se antecipou e cometeu o erro. No jornal impresso, não dá pra fazer isso. Não dá pra tirar a matéria do papel, e depois tentar explicar que publiquei ‘isso’ porque não havia entendido ‘aquilo’. A palavra impressa tem um peso edificante. E demolidor. Engraçado como a tecnologia facilitou, mas acabou por acelerar ao limite – ou além dele – todo o processo de produção de informação. A pauta ficou descartável, as informações não são apuradas, os acontecimentos não são desdobrados. Parece que não dá tempo, tudo precisa ir logo pro ar! Veja só o caso dos ministros que seguidamente acabaram afastados do governo da Dilma, numa sucessão de escândalos. Quem mais fala deles? Que fim levaram as denúncias? Depois veio o mensalão, que já teve o auge de exposição e começa a sair de cena. A pauta jornalística acaba sendo atropelada! O jornal impresso tinha, e ainda tem, 24 horas para ser produzido. Até por isso, por esse valor extraordinário da palavra impressa, quero dizer que não tenho medo do que está acontecendo. Veja se é possível, por exemplo, suprimir o livro… Eu não sou pessimista, pelo contrário, sou um otimista. Aliás, se eu não fosse assim seria um velho insuportável. E se, ao ficar velho, você ainda ficar pessimista, está roubado! (risos)

E saudosista? Você é?
O passado é sempre bom, pois dá a ilusão de que você está mais perto da felicidade. Quando falo de um assunto ocorrido no passado, todos os aspectos negativos daquele contexto a vida já eliminou, o tempo se encarregou de curar. Veja o caso do JB. Apesar da tristeza que envolve o fim da circulação da versão impressa, o que ficou mesmo na memória foram os bons momentos. Dentro do JB, passei mais de cinco décadas.

“Jornal não se vende! O jornal é o que é. Ele não pertence ao dono, e sim aos seus leitores, ao seu público cativo. Quem compra o jornal percebe quando o veículo a que ele sempre seguiu perde sua alma.”

Muitos, além de você próprio, já falaram dos aspectos técnicos da famosa reforma do JB. Mas, partindo da sua tese de que os fatos não acontecem isoladamente, gostaria de ouvir uma análise daquele processo, de uma forma mais abrangente, situando o jornal no contexto em que vivia o País…
Ótimo! O JB começou a sua reforma em 1957. O sucesso do Jornal do Brasil ocorreu pelo fato de ele ter conseguido esperar o retorno do investimento. A empresa tinha caixa suficiente para se sustentar, graças ao que era arrecadado pelos classificados, que era um dinheiro expressivo e que entrava ali na hora. E o retorno não veio só porque o jornal estava bom, mas também porque o momento era bom… A reforma começou em 1957 e levou uns três ou quatro anos para ser concluída, em sua primeira fase. O JB era, até então, um jornal sem público cativo, quase um serviço de classificados. Não era um jornal político, não era nada. E nós apostamos numa leveza editorial. Tudo era publicado com a mão leve. Não tínhamos inimigos declarados, corrente política, tampouco opinião. Tudo isso, naquele contexto, fez  que o JB se expandisse com grande liberdade, tivesse uma grande penetração social, quase sem fronteiras ou obstáculos. Em 1960, tivemos a eleição que elegeu Jânio Quadros para Presidente da República e Carlos Lacerda para o Rio. E o JB seguiu cobrindo todos esses assuntos com a mão leve, sem a paixão e o ódio arraigados, tão comuns aos jornais da época. O jornalismo, até ali, era muito carrancudo, coisa de velho, com linguagem de velho. Todo mundo era tratado como senhor, ainda que fosse para ser esculhambado… (risos) Era uma coisa solene demais. Após sete meses da sua posse, Jânio renunciou. O Brasil revivia a ameaça da década de 1930, quando da instalação do Estado Novo de Getúlio Vargas, que perdurou de 1937 a 1945. A eleição, o governo e, por fim, a renúncia de Jânio reviveram aquele cenário de crise. A economia brasileira mergulhou, então, numa profunda crise, e houve um processo nacional de liquidação dos jornais. Eles foram – quase todos – falindo. O Correio da Manhã acabou. O Diário de Notícias foi para o beleléu. O mesmo ocorreu com a Última Hora. Observe que, quando falamos de fechamento de jornais, não estamos apenas nos referindo a um processo atual… Isso sempre ocorreu! Foi com a derrubada do Getúlio, em 1954, que o JB começou a pensar em sua reforma, que acabou por se consolidar justamente quando outros jornais tradicionais naufragavam. Nessa época, emergiu o JB. O Brasil também se dispunha a uma arrancada histórica, plantada por Juscelino Kubitschek. O salto industrial estava preparado. Havia dificuldades, inclusive políticas, mas o País seguia adiante. O último abalo tinha sido a morte de Getúlio Vargas. Mas estava na medida exata para JK, que fez um bem enorme, em primeiro lugar, aos brasileiros com um governo de resultados visíveis. Deu o toque industrial ao Brasil e acesso do brasileiro ao consumo de bens duráveis, como dizem os economistas. Sem querer, o JB e JK, embora se estranhando em diversos episódios, participaram do mesmo projeto. As mudanças no jornal coincidiram com o salto de modernidade na economia e na indústria. As agências de publicidade já distinguiam o JB, que passou por longos anos absoluto, em vôo de cruzeiro, até acabar. E, quando acabou, já experimentava o declínio há algum tempo, descendo gradativamente.

Um jornal não acaba de um dia para o outro…
Exatamente. É mais difícil acabar do que começar. Não que começar seja fácil, mas acabar é muito mais difícil… O jornal foi minguando, caindo, até que foi vendido. Aí, entra outra lição: jornal não se vende! O jornal é o que é. Ele não pertence ao dono, e sim aos seus leitores, ao seu público cativo. Quem compra o jornal percebe quando o veículo a que ele sempre seguiu perde sua alma.

Como se deu a virada na imagem do Jornal do Brasil quando da reforma iniciada no final da década de 1950?
Antes da reforma, as pessoas compravam o JB por causa dos anúncios e classificados que abrangiam todo o mercado profissional com ofertas de empregos em diversas áreas. Era até mesmo chamado de ‘jornal das cozinheiras’, no que poderia haver de mais pejorativo nesta classificação. Até nas primeiras páginas havia anúncios de classificados. A idéia era fazer um jornal diferente. Com a reforma, o conteúdo também mudou. Até então, as notícias eram mais serviços do que reportagens. Quando vim para o Rio, em 1957, passei por diversas Redações. Alguns meses na Última Hora, ainda uma referência política. Passei pela Tribuna da Imprensa. Até que o Carlos Castello Branco me levou ao Odylo Costa, filho, que estava recrutando profissionais justamente para começar a reforma do JB. Que, é preciso dizer, foi feita também muito na base do improviso e da experimentação… A concorrência demorou a reagir. Mas como o JB tinha o monopólio dos classificados, estava com o mercado nas mãos. Os comerciantes faziam fila para comprar um espaço no jornal. Foi assim que empurramos o padrão para salários maiores. Muitas publicações sumiram naquele período pós-1964 pela incapacidade de lidar com a censura. E pela falta de modernização na relação com as agências de publicidade.

Para muitos, a venda do JB para o Nelson Tanure – uma figura controversa no meio empresarial – teria ajudado a selar o fim do jornal…
Não sendo um homem do ramo, ele não podia ter a cabeça do ramo. Um jornal é uma coisa muito subjetiva. Exige um equilíbrio…

Ele atuava apenas no campo empresarial, ou intervinha diretamente na linha editorial?
Ah, não tem como não influenciar na Redação, não é? Todo dono se mete… E o dono do jornal tem que ser do ramo exatamente por isso, para fazê-lo com alguma propriedade. Eu acredito que, de fato, ele queria salvar o Jornal do Brasil. Ele também queria, logicamente, não perder dinheiro. Não era um santo salvador, nem estava ali para fazer milagres. Assumiu o JB como um empresário que aposta num negócio. Só que os custos da empresa não paravam de crescer, inclusive em virtude dos passivos trabalhistas já somados no processo de agravamento da crise.

Você permaneceu no JB até quando?
Eu saí no fim. Depois que o Tanure assumiu o jornal, em 2001, eu trabalhei um pouco com ele… Saí em 2003. Aliás, ele sempre me tratou muito bem. E, até depois disso, permanecemos amigos.

É possível descrever o seu sentimento ao ver um jornal do porte do JB despedir-se das bancas?
Já disse algumas vezes que a importância do Jornal do Brasil para mim começou na infância, quando meu pai, lá no interior do Espírito Santo, passou a assiná-lo. Foi doloroso assistir a esse processo de decadência. O jornal foi acabando todo dia um pouquinho nos 20 anos que eu trabalhei lá e foi triste ficar impotente diante daquilo. Mas, em vez de falar da tristeza, eu prefiro falar do que ficou de melhor. E afirmo aqui que nunca soube de um fenômeno igual. Já faz mais de dez anos que ele acabou, ao menos no formato em que havia se consagrado, e anualmente, até hoje, o pessoal da Redação se encontra para um almoço, lá no Leme, na Fiorentina, marcado pela emoção. Só faltam os que já morreram… (risos) É uma profusão de histórias, de risadas, choro… É o retrato de um time.

Como explicar o declínio de uma referência jornalística, como era o JB?
Os jornais tendem a ser casamatas. O sucesso mexe com a cabeça de seus donos – que se sentem invencíveis. A prepotência vem daí. Você pode ver que os grandes jornais que sucumbiram sofreram esse revés porque em algum momento colidiram com o poder.

Os Nascimento Brito foram prepotentes?
O Manuel Francisco foi. E sua principal leitura equivocada foi de que o Brasil tivesse mudado, e não tinha… Aliás, acho que só mudamos mesmo com o fim da ditadura militar… Um jornal tem que manter sua independência de forma crítica e sensata. Não dá para declarar guerra nem prestar apoio absoluto. Veja esta lição histórica: o Getúlio Vargas tinha um jornal que o apoiava, a Última Hora. Ele não atacava o Presidente, pelo contrário, fazia o jogo político do Getúlio. De resto, atacava todo mundo, inclusive os ministros do Getúlio… (risos) E isso não salvou o Getúlio. Ele se matou! Logo depois, a Última Hora começou a morrer também… Um segurou o cadáver do outro… Repare que a reforma do JB, iniciada em 1957 em suas páginas, só foi mesmo concluída em 1973, com a modernização do equipamento gráfico para atender às necessidades do novo prédio, localizado na Avenida Brasil, 500. Ali o jornal provou a embriaguez do sucesso. A nova sede era o sinal exterior da opulência.

“O Jornal do Brasil sabia burlar a censura. Dines foi um chefe de Redação com grande capacidade de pensar, e com o talento de fazer as pessoas pensarem.”

Você citou o fim da ditadura. Como foi trabalhar no período militar, pós-1964?
O JB era um jornal que estava por baixo, pouco mais de um caderno de classificados, por isso mesmo não tinha nada que travasse ou impedisse sua reforma. O jornal começava a sair do anonimato para se apresentar ao grande público. Neste contexto da reforma, o novo posicionamento político da publicação foi definido, em grande parte, pelo Alberto Dines. A partir do golpe, quase todos os jornais sofriam absurdamente com a censura, num confronto penoso e direto. O JB atuava com certa liberdade, pois sempre que era proibido de publicar algo, dava um jeito de fazê-lo pelas entrelinhas, de forma sutil, inteligente e sem caráter ostensivo. O Jornal do Brasil sabia burlar a censura. Dines foi um chefe de Redação com grande capacidade de pensar, e com o talento de fazer as pessoas pensarem. O JB foi um veículo publicitário competente, uma escola de jornalismo e uma empresa na qual tínhamos orgulho de trabalhar. Não havia limites para o jornalismo. Nós fomos uma espécie de ‘urubus da crise’ – florescemos num momento em que o País mergulhava nas trevas da ditadura militar. O Estado de S. Paulo também agia assim, mas era uma publicação mais séria, carrancuda… No lugar de uma reportagem censurada, eles publicavam versos de Camões. O JB publicava uma paródia de Camões… (risos)

Como foi o processo de saída do Dines?
Geralmente, chefe em jornal não dura tanto tempo como Dines ficou, acho que por 12 anos. Ele conseguiu equilibrar o jornal. Antes dele, em poucos anos, o JB teve meia dúzia de chefes de Redação. O Alberto Dines era um jovem conhecido, com boas referências junto a escritores e empresários. A sua ida para lá foi fundamental para o crescimento do jornal. Ele teve uma visão que foi correta: atendeu às necessidades de uma empresa que estava voltando ao jornalismo, pois o JB de então, como já disse, era basicamente feito de classificados. E ele soube costurar bem a relação entre a Redação e sua parte comercial. Soube conduzir as reivindicações da Redação junto à direção do jornal, e não só no aspecto salarial, mas na abertura de espaço para inovações, de tolerância, de experimentações, para se contratar mais gente, abrir campo para sobra de energia criativa. E, por outro lado, deixava claro para o pessoal da Redação que os interesses da empresa eram legítimos. Tudo era discutido, até se achar um foco adequado, que acomodasse a situação como um todo…

Mas isso certamente gerou um desgaste…
Ao longo do tempo, isso cansa, não é? A repetição dos problemas cansa… E ele saiu de uma maneira inesperada para todo mundo e até para ele mesmo. Não foi uma saída negociada. Houve uma divergência, um corte na relação dele com a empresa. E, no campo do jornalismo, pelo menos de imediato, não aconteceu nada demais, não houve conseqüência, pois o Dines já havia deixado tudo definido, consolidado…

Como era exercer a função de colunista ou editorialista sob a tensão de atender às expectativas da empresa jornalística?
Antigamente, um dono de empresa falava diretamente com o dono de um jornal. Hoje isso não acontece, porque se um jornal apóia uma determinada companhia, em um momento de crise empresarial, a imagem do veículo será manchada. Atendendo a um pedido do Dines, assumi uma coluna no primeiro caderno do JB. O contato diário com os diretores do jornal ajudaria a temperar o tom político do espaço, que se chamou Segunda Seção e depois passou a Informe JB. Acabei saindo da coluna em janeiro de 1965, assim que o Castello Branco começou a escrevê-la. Optei por sair após algumas divergências de opinião sobre como a coluna deveria ser. Não queria que fosse um espaço para notinhas ou fofocas. Já a direção do veículo queria que seus colunistas não divergissem da ortodoxia do jornal. Ficou difícil trabalhar daquele jeito. Um colunista não pode se colocar contra a empresa, mas precisa de uma margem de liberdade crítica. Saí da coluna, mas continuei como editorialista e assinando matérias.

Você foi o responsável pelo lançamento do Ziraldo?
Fui. Acho que ele está falando nisso agora por uma questão de consciência… (risos) Podia já ter falado há mais tempo. Está falando só agora! A Folha de Minas era um jornal do Governo e, portanto, bastante limitado em sua atuação política. No noticiário, era obrigado a se conter e a tratar da defesa dos interesses do Governo. Aliás, esse caso serve para provar que governo não pode ter jornal, porque isso simplesmente não funciona. A Folha de Minas havia sido fundada por Afonso Arinos como publicação de oposição. Dois anos depois estava quebrada, quando foi vendida para um banco que era apenas o testa de ferro – era o Governo quem a estava comprando. Eu entrei nesse jornal logo depois disso. Estávamos numa democracia, no regime constitucional instaurado em 1946. Entrei em 1949 e lá fiquei até 1957, quando vim para o Rio. E aprendi muita coisa, era uma grande escola. O Governo via a publicação como um lenço no bolso – não era a sua roupa inteira. Mas funcionava como enfeite social, uma gravata bonita. Era até engraçado, pois quando mudava o Governo era um alvoroço danado, até se encontrar a nova linha editorial de coerência… (risos) Ou seja, podia até mudar a figura do senhor, mas o jornal seguia firme em sua causa. O governismo é uma causa, não é?

Pelo visto, neste caso, era. (risos) Mas e o Ziraldo?
Ah, sim. Um dia o Ziraldo bateu na Redação, lá em Belo Horizonte. Naquele tempo o profissionalismo estava começando – os salários não eram bons, quase todo mundo tinha mais de um emprego em jornal. Todo mundo já havia saído, já era tarde. E eu ainda estava lá. Era uma quarta-feira, acho. A Folha de Minas havia acabado de perder o seu colaborador, que era o Borjalo, que tinha vindo para o Rio, para trabalhar na Manchete. Ele fazia uma página inteira, nos moldes em que as revistas francesas faziam, com personagens e piadas. E fazia isso muito bem! O Ziraldo viu a notícia da saída do Borjalo, correu para o jornal, entrou da Redação: “Dá licença!”. E eu perguntei: “E aí meu filho? O que houve? Qual é o caso?”. Ziraldo, do alto de seus 18 ou 19 anos, respondeu: “É que eu vim aqui para substituir o Borjalo”. (risos) E eu: “Ah, não diga… Senta aqui pra gente conversar”. E ele sentou-se e começou a me mostrar seus trabalhos, daquele jeito dele, de quem se tiver que morrer assassinado é pela frente… Pá, pá, pá! Começou a tirar páginas e mais páginas e a me mostrar tudo. Era um principiante, mas tinha um trabalho ótimo. Sempre foi um homem de talento. Disse a ele que havia achado os desenhos muito bons, mas pedi que voltasse no dia seguinte, pois eu teria que conversar com o Diretor, que estava jantando, para mostrar sua produção… “Tá bom, eu passo aqui mais tarde!”, disse o Ziraldo, cheio de vontade de agarrar aquela oportunidade. O Diretor gostou e decidiu contratá-lo logo, até para não haver interrupção na publicação: saía o Borjalo e, quase que de imediato, Ziraldo entrava em seu lugar. Cheguei a fazer um texto de apresentação do novato para os leitores do jornal. “Ziraldo Alves Pinto, guardem bem este nome, que ainda será muito famoso”. Escrevi isso ou alguma outra bobagem do tipo, o que deixou o Ziraldo emocionado. Mas, ao longo de décadas, nos encontramos várias vezes e eu sempre mexi com ele. “Ziraldo, você é um sujeito engraçado! Me agradece pessoalmente, mas nunca publicou isso. Nunca deu um depoimento sobre isso, dizendo que fui eu quem te revelou”. Sacaneei tanto o Ziraldo com isso que, agora, acho que ele cansou e começou a falar desse episódio… (risos)

Queria começar a falar do livro E a Vida Continua – A Trajetória Profissional de Wilson Figueiredo, lançado em 2011, pela editora Ouro Sobre Azul. Causou surpresa essa obra, pois você sempre teve aversão à idéia de uma biografia…
Isto foi resultado de um convite que a empresa em que trabalho atualmente me fez. Aqui, na FSB Comunicação, sou muito mais velho que todo mundo. Estou com 88 anos! E aqui é tudo garotada! O próprio dono deve ter uns 20 ou 30 anos a menos que eu. Fui me acomodando aqui e ali, e acabei virando para esse pessoal mais jovem uma espécie de referência. Sou ‘o jornalista velho’, que tem mais experiência. E aí me perguntam: ‘Wilson, como é que a gente resolve este ou aquele problema? Como é que foi mesmo aquela história do Getúlio?’. E aí experimento sempre uma coisa muito boa, que é o jornalismo que traz.

Exatamente o quê?
O jornalismo reordena diariamente o seu modo de ver a própria História. Se você não lembrar das coisas, ou não souber relacioná-las com os novos acontecimentos, de nada valeu. Você ficou pra trás! Eu acompanhei o Brasil desde o Estado Novo – em 1937 eu tinha 13 ou 14 anos, e já lia jornal! Havia um esforço, uma tentativa de mobilização da opinião pública para a Guerra. E o Brasil não estava preparado para entrar nela. Primeiro, pelo fato de que tínhamos um Governo de direita. E havia um veto e uma censura permanentes à imprensa, de forma como não havia como pensar numa democracia por aqui – nem de esquerda, nem de direita. Não havia debate político. Não havia Câmara, nem Senado, pô! O que houve na época foi uma mobilização estudantil para criar uma opinião favorável à entrada do Brasil na Guerra, quando começaram a ocorrer os afundamentos de navios. E o Brasil não reagia! Eu militei ativamente neste período. Participei de três Congressos da Une – realizados em 1944, 1945 e 1946. Houve, então, uma mobilização, um esclarecimento popular sobre essa questão. Entramos na Guerra. E quando ela já se aproximava do fim, todos já admitiam a idéia de que o Brasil se tornaria uma democracia em pouco tempo. O fim da Segunda Guerra foi bom, sobretudo, porque ninguém ousou pensar em outra coisa que não fosse criar um Estado de legalidade neste País. Essa foi a grandeza daquele momento. O Partido Comunista voltou à legalidade, os partidos de oposição começaram a aparecer… E eu participei de tudo isso, como prioridade pessoal na minha vida.

Pois é, Wilson. Você está falando de memória. Eu vou chamar isso de trajetória. Você, em quase sete décadas de atividade, atuou como repórter, redator, editor, colunista, cronista e editorialista. Cobriu o fim do Estado Novo, a Constituinte de 1946, o suicídio de Vargas, os anos JK e as loucuras de Jânio Quadros, chegando a prever, com dias de antecedência, a sua renúncia. Atuou, ainda, nos anos da ditadura, nas Diretas Já e chegou à redemocratização, com a saída de Collor, os tempos de instabilidade política com FHC e Lula. Não lhe parecia um pecado – no mínimo um desperdício – deixar tamanha experiência sem um registro documental, isto é, restrita apenas às suas lembranças?
Então, um belo dia o Francisco Soares Brandão, sócio-fundador aqui da FSB, me chamou e disse: ‘Eu tive uma idéia! Publicar um livro sobre a sua vida!”. E eu respondi: “Ah, essa não! Não há hipótese, Chiquinho!”. Sou arredio, não gosto desta exposição. Na verdade, sou tímido. Eu gosto é de conversar com os amigos. Até que reelaborei a proposta. “Façamos o seguinte. Vamos tratar da minha vida profissional, mas falando das coisas do meu tempo, passando pelos fatos que vi e vivi. Eu colaboro e coisa e tal”. Pronto! Ele logo contratou uma empresa para editar o tal livro! Eu fiz algumas exigências. Algumas delas foram cumpridas, outras não… (risos)

Como assim?
Ah, pedi que eu tivesse a última palavra sobre tudo! Mas, claro, eles acabaram fazendo, meio que à revelia, uma espécie de roteiro, uma marcação do tempo, um negócio pequenininho assim bem do lado da página, onde foi construída uma cronologia da minha vida.

Ah, entendi… Acabaram entrando no livro mais coisas pessoais do que você gostaria…
É, mas nada que comprometesse. Acabei gostando. Acho apenas que o lado pessoal não tinha que entrar na minha biografia, pois ele não tem peso. Se eu tivesse um êxito social extraordinário… Mas eu sou uma pessoa comum. Minha família delirou. Pois os familiares, você sabe, acham que a gente deve se expor. Eu acho justamente o contrário! Mas tudo bem…

O jornalista Moacyr Andrade foi o organizador do texto. Você, com suas exigências, deu muito trabalho pra ele?
Acho que sim… (risos) Se bem que ele não é muito de reclamar, nem de falar. Agora, no dia de lançamento do livro, na Travessa do Leblon, ocorreu algo de curioso. Eu fiquei em pé por quase seis horas, sem sair do lugar, num espaço de dois metros quadrados, cercado de gente por todo o lugar. E o Chiquinho falou: “Não, você não vai dar autógrafos. Isso a gente combina com a pessoa, que ela receberá em casa, depois…”. Na verdade, eu teria vergonha de fazer uma dedicatória padrão pra todo mundo: ‘Para fulano de tal, com a admiração e o abraço do Wilson Figueiredo’. Não! Para cada um eu teria que escrever algo particular. Sou assim… Sei é que eu quase fui ao inferno no mês de dezembro de 2011, de tanto livro que assinei, com as tais dedicatórias personalizadas… Eu quase não me lembro de mais nada daquele período. (risos) Parece que nem vivi… Em janeiro do ano passado minha mulher, Lourdes, tinha que fazer uma operação cardíaca. Teve que adiar para fevereiro, ficou para 2 de março. Ela morreu logo depois, no dia 4. E eu com problemas de coluna! Foi um horror, era o fim da picada! Mas, é o que eu disse: os relatos pessoais não devem pautar a minha vida… Posso até falar aqui, nesta entrevista, mas não há por que isso estar num livro…

“Jornal ocupa a cabeça e a vida pessoal. É pior que paixão!”

Com o perdão do trocadilho, tamanha dedicação na escrita das dedicatórias parece mesmo coisa de poeta…
Antes de ser jornalista, fazia versos, queria ser escritor, como todo jovem. Editei dois livros. Depois me arrependi. E jurei que não faria mais. Tinha sido bem acolhido pela crítica. Criei expectativa de que seria escritor. Mas, logo depois, queria sair. A rotina de jornalista era exigente, mas estimulante. Jornal ocupa a cabeça e a vida pessoal. É pior que paixão! Meu primeiro emprego foi na Agência Meridional, dos Diários Associados, na Redação do Estado de Minas, em Belo Horizonte, em 1944. A mudança de rumo profissional se deu também a partir desse emprego que Castellinho me arrumou. No mercado de jornais, tinha um escalonamento. Existia uma categoria que desapareceu, que era o noticiarista, profissional que reescrevia a notícia. Havia o repórter e o redator, que era o mais qualificado. Entrei como noticiarista, e quando recebi o primeiro salário me senti rico, aos 20 anos de idade. Isso foi determinante não para eu mudar da literatura para o jornalismo e,  sim, para alterar minha vida. Eu já lia, fazia literatura, já tinha feito revistas, esse tipo de coisa toda. Essa minha experiência é anterior! Quando cheguei à capital mineira, em 1943, tinha 18 anos. Não conhecia ninguém! Fui fazer o científico e caí num colégio chatíssimo. Ia estudar Medicina. No meio do ano, já não agüentava mais. Aí conheci o Sábato Magaldi, o Autran Dourado… E foi assim que passei a viver a literatura. Em 1944 eu conheci o Mário de Andrade, e como eu morava em pensão de estudante fiquei companheiro dele nas saídas noturnas em Minas… E como ele gostava! Falava de samba à beça. Noel Rosa… E eu sabia tudo! Mas quando comecei a trabalhar em jornal, aconteceu o inevitável: o dinheiro me mudou a cabeça. Aí comecei a redesenhar minha vida.


O livro trata do seu talento literário e de sua relação de amizade com quatro grandes escritores, todos mineiros. Nos seus tempos de poeta, você andou na turma de Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos. Em que medida a convivência com eles definiu sua trajetória profissional? Havia, por exemplo, alguma espécie de pressão para que você se dedicasse apenas à literatura?
Eu me preparava para o vestibular de Medicina por uma escolha tácita de família, pois nenhum dos quatro filhos homens de meu pai quis seguir a sua profissão. Quando fui morar na tal pensão de estudantes, logo me enturmei com o pessoal da literatura. Esses quatro já marcavam presença nos suplementos literários. Bom, o Otto era mais velho e já trabalhava com jornalismo quando vim para o Rio. O Sabino também já escrevia para jornais. E isso tudo era muito novo, porque o jornalismo antigo era feito por outro tipo de gente. O jornalismo é um exercício literário, também. Não parece, mas é. Eles me estimulavam, mas não tentavam exatamente me fazer apenas um escritor, até pelo fato de todos eles, com maior ou menor intensidade, também se dedicarem ao jornalismo.

A seu respeito, o polêmico Nelson Rodrigues escreveu: “Geralmente, nós, jornalistas modernos, temos a mania da objetividade, por isso, não enxergamos nada, somos cegos para as evidências mais ululantes. O Wilson, não. É poeta e, como tal, está sempre a um milímetro do delírio”. Como recebeu estas palavras?
Nelson tinha mania de fazer dos amigos, personagens. Fomos ficando amigos. E ele me tornou ‘profeta do Fluminense’. Escrevia dizendo que eu garantia a vitória do Flu no domingo toda vez que a anunciava. Só que o Fluminense sempre perdia… (risos) Ele achava que o texto devia ser pessoal. Mas o jornalismo moderno, além de apressado, é impessoal. Você lê uma notícia e não sabe quem a escreveu. Tem um padrão, tem um método técnico. Nelson gostava quando o autor aparecia por trás da matéria. A formação jornalística dele é anterior à guerra. O jornalismo americano, que é o modelo que seguimos atualmente, chegou ao Brasil depois da guerra, no fim dos anos 1950. Em Nelson, tudo se resumia à maneira pessoal de dizer as coisas. Ele era personalíssimo, inconfundível e chegava a ser repetitivo. Era um catador de adjetivos de precisão anormal.

Como ocorreu sua formação jornalística?
No meu tempo, jornalista não tinha diploma, não havia curso específico. Era na faculdade de Filosofia que havia um curso de jornalismo. Como você sabe, eu desisti da Medicina e fui fazer jornalismo. No que comecei a entrar nisso, fui aprendendo. Eu trabalhava com Carlos Castello Branco, trabalhava ao lado dele. É preciso lembrar que no fim da Guerra não existia notícia política no Brasil. E havia uma coisa da qual as Redações, depois, se livraram: como não havia notícia local, muito menos em Minas, os jornais tinham colaboradores. E o noticiário era nacional, no sentido de que o Poder Executivo abastecia as Redações com informação de construção de pontes, viagens de ministros… Eu trabalhava com esse material. Sobretudo na altura que entrei pela primeira vez numa Redação, em 1944, os jornais já viviam da Guerra. De um lado os russos avançavam. Do outro, os ocidentais, americanos, ingleses… A coisa estava avançando aos pouquinhos, a feição do mundo mudando e a liberdade recomeçando. Aos poucos, os jornais tinham mais liberdade para noticiar o que era proibido antes. Até então, era um terror, a censura era violenta! O que eu fazia, nessa época, foi muito bom para mim, supriu a ausência de uma escola de jornalismo. Os jornais se abasteciam com telegramas, e todos eles chegavam para mim. Eu separava o que era noticiário nacional e internacional, pegava o internacional e juntava cinco, seis agências… O jornalismo era diferente naquele tempo; você tinha menos redatores e mais material. Recebia uma versão da agência e fundia aquilo tudo em uma matéria, com telegramas de 30, 40 linhas, entrevistas. Ao lidar com tudo isso fui aprendendo. Eu estava na Agência Meridional, que funcionava dentro do Estado de Minas. Por vezes, acho que falta esse tipo de experiência aos colunistas atuais. Temos, por exemplo, o caso de um editor de O Globo, que há pouco ingressou na Academia Brasileira de Letras. Ele desempenha sua função com competência, mas sem um brilho especial no texto… Depois de Minas, já no Rio, trabalhei em O Jornal, outro que desapareceu. Era um dos veículos mais importantes dos Associados, que tinha uma cadeia de mais de 50 jornais. A produção toda era local, não havia como mandar para outro lugar. Tinha que mandar pelo telefone – o que era uma tortura – ou por teletipo que era por código… Um horror! Um atraso total! Essa foi minha iniciação no jornalismo.

“O jornal precisa do repórter que sai, que vai para a rua e sabe do que está falando – sabe que é uma profissão. Sabe tratar a notícia.”

Qual sua opinião a respeito da polêmica sobre a não exigência do diploma para o exercício da profissão?
No meu tempo jornalista não tinha diploma. Sequer havia curso. Não tenho uma opinião dogmática. O jornalismo de hoje só foi possível porque usou como mão de obra jornalistas que fizeram curso e chegaram com o diploma. Essa mania de combater o diploma não quer dizer nada. Talvez alguns precisem disso em um País de precário nível social. Mas o jornal precisa do repórter que sai, que vai para a rua e sabe do que está falando – sabe que é uma profissão. Sabe tratar a notícia. Os cursos de Jornalismo fizeram um bem enorme para a profissão. Acabar com a exigência do diploma, na verdade, apenas desestimula o jovem a estudar.

Wilson, aos 88 anos, a vida continua?
Ah, sem dúvida… Sabe que outro dia me dei conta de que quando eu comecei a trabalhar eu não lia jornal como leio hoje. Hoje sou um leitor muito mais apurado, atento. É que no começo eu tinha uma cabeça cheia de idéias. Hoje eu tenho a mente mais aberta, eu quero saber sobre os problemas da China, do que ocorre lá do outro lado do mundo… (risos) E me permito pensar outras coisas, como organizar uma edição com as minhas poesias produzidas nas últimas décadas – tenho várias delas guardadas, que precisam ser organizadas. Prestes a botar o pé no último degrau antes de chegar aos 90, eu continuo olhando a vida com muito interesse. Ainda tenho muita curiosidade… Você não? Ah, você tem também! Eu vejo que tem…

Texto e imagens reproduzidos do blog: doispontosblog.wordpress.com

sábado, 26 de agosto de 2017

A despedida de Domingo Alzugaray


Publicado originalmente no site da revista Planeta 533, em 17/08/2017.

A despedida de Domingo Alzugaray

Fundador da Editora Três e da revista Planeta deixou um legado inestimável para a imprensa e a democracia no Brasil

Por Germano Oliveira 

Domingo Alzugaray morreu no dia 24 de julho no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, aos 84 anos. Como fundador da Editora Três, Alzugaray deu uma contribuição inestimável ao jornalismo brasileiro. Foi um defensor intransigente da liberdade de expressão e da democracia. Deixa um legado de jornalismo independente e combativo, a serviço do leitor e da verdade. Foi um editor corajoso e incansável batalhador. Conectado sempre com os anseios de uma sociedade exigente, sensível e plural, Alzugaray modernizou e transformou a linha editorial dos veículos de comunicação do País.

O velório e a cerimônia de cremação foram realizados no crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra (SP), e contou com as presenças do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin; do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles; do senador José Serra; e de empresários como Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco; Norberto Birman, diretor-executivo da Amil; Paulo Kakinoff, presidente da Gol; entre outros. Nascido na cidade de Victória, província de Entre Ríos, na Argentina, Domingo Alzugaray, publisher e fundador da Editora Três, que edita as revistas semanais ISTOÉ e ISTOÉ Dinheiro, Dinheiro Rural, ISTOÉ Gente, Planeta, Menu, Motor Show e diversas outras publicações, naturalizou-se brasileiro em 1966.

Ele formou-se em Perícia Mercantil, mas preferiu iniciar a carreira como ator, trabalhando em teatro e cinema. Fez filmes como Bendita Seas (1956), Pobres Habrá Siempre (1958) e Meus Amores no Rio (1958). Atuou também em Sábado a la noche, cine (1960) e Con el Más Puro Amor (1966). Trabalhou como ator também em fotonovelas, até ser convidado pela Editora Abril para participar da produção de revistas como Veja. Nessa editora, foi diretor da Divisão de Revistas e Diretor Comercial.

Em 1972, deixou a Abril e criou a Editora Três, ao lado de Luis Carta e Fabrizio Fasano. A primeira revista a ser produzida pela Editora Três foi a Planeta. Lançou também a Status, a primeira revista brasileira voltada para o público masculino. As revistas ISTOÉ, ISTOÉ Dinheiro e Dinheiro Rural são os carros-chefe da Editora Três até a atualidade. Com o sucesso editorial, Domingo Alzugaray recebeu várias honrarias, como a medalha Tiradentes em 1998 e o Prêmio Editor em 2011, concedido pela Associação Nacional de Editores de Revistas. Em 2013, recebeu também o Prêmio Personalidade da Comunicação, do Congresso Mega Brasil de Comunicação.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistaplaneta.com.br

sábado, 19 de agosto de 2017

Vencedores do Nordeste do Prêmio MPT de Jornalismo 2017


O aluno Douglan Monteiro e a professora Juliana Almeida, do curso de Jornalismo, foram vencedores do Nordeste do Prêmio MPT de Jornalismo 2017 e foram à Brasília receber seus prêmios!!

- Douglan venceu na categoria Universitário, com o trabalho: 'Discriminação de cor: entender para combater', veiculado no Notícias em 10, projeto de extensão do curso de jornalismo, orientado pela professora Juliana.

- Juliana venceu na categoria Radiojornalismo, com o trabalho: 'Mercado de trabalho para a mulher trans: luta por igualdade e respeito', pela Rádio UFS.

Lembrando que foram mais de 400 inscritos de todo o país, que abordaram o tema direito trabalhista.
Parabéns, Douglan e Parabéns, Juliana!!

Texto e imagem reproduzido do Facebook/COMUNICAÇÃO SOCIAL - UNIT.

Sobre a Crise do Jornalismo

Foto: Orlando Kissner.

Publicado originalmente no site da revista CartaCapital, em 04/07/2017. 

Sobre a Crise do Jornalismo.
Por Jorge Alberto Benitz.

Existe um hiato entre o fim de um modelo de jornalismo e o não advento de outro que o substitua e transcenda suas bases.

No artigo de Rosane Borges intitulado “Que Crise? Que Jornalismo?", publicado no Blog da Editora Boitempo ela começa comentando o dito de Mario Vargas Llosa “ler um bom jornal é a melhor maneira de começar o dia” e o abalo que ele sentiu ao tentar “entender exatamente o que havia acontecido na Síria de Bashar Al-Assad, em virtude da divulgação, pela imprensa, do uso de armas químicas contra cidadãos inofensivos. Segundo ele, consultou jornais em inglês, italiano e francês sem conseguir obter informações claras e abalizadas. Diante a incapacidade de os jornais noticiarem com precisão e sem prismas ideológicos, desabafa Vargas Llosa:

“Ler vários jornais é a única maneira de saber o quão pouco sérias às vezes são as informações, condicionadas como estão pela ideologia, os medos e preconceitos dos proprietários dos veículos, dos jornalistas e correspondentes. Todo mundo reconhece a importância central que a imprensa tem em uma sociedade democrática, mas provavelmente poucas pessoas alertam que a objetividade informativa existe apenas em raras ocasiões e que, na maior parte das vezes, a informação tem lastro no subjetivismo, pois as convicções políticas, religiosas, culturais, étnicas etc., dos informadores frequentemente deformam sutilmente os fatos que descrevem até mergulhar o leitor em uma grande confusão, ao extremo de às vezes parecer que os noticiários e jornais passaram a ser, também, romances e contos, expressões de ficção. Aqui o escritor ao reclamar de uma questão geopolítica especifica, estende sua reflexão para o papel da  imprensa mundial como um todo. Reflexão de ótima qualidade que desvela um problema que parece se agudizou justamente com o advento do neoliberalismo.

Meu foco, no entanto, é outro e diz respeito à primeira fala dele reclamando da perda de um jeito de começar o dia que era comum a toda uma geração pré-internet. Senti esse mesmo abalo ao cancelar minha assinatura do maior jornal da aldeia, que prefiro não revelar seu nome. Abalo que as novas gerações não têm. Mesmo os que leem jornais, além de o lerem no suporte digital, eles não tem o hábito de ler “de cabo a rabo” como frequentemente era comum em nossa geração. Voltando, ler no suporte digital não é a mesma coisa. Aos poucos vou me adaptando a este novo jeito de ler sem, no entanto, deixar de ter saudade daquele “modo de começar o dia”.    

O cancelamento de minha assinatura do jornal tem tudo a ver com o que diz Mario Vargas Llosa acerca da perda quase total do sentido maior do jornalismo que é a objetividade dos fatos devido a subjetivismos de toda a ordem, como os por ele relacionados. No entanto, no meu caso, e o de muitos que conheço, a razão tem tudo a ver com a perda desta objetividade, isenção e imparcialidade em função da hegemonia de um paradigma que assumiu uma amplitude que praticamente eclipsou o resto. Estou me referindo aquilo que Ignacio Ramonet, denominou de pensamento único, isto é, a narrativa jornalística capturada pelos (des) valores do Mercado. Não se espere do liberal Mario Vargas Llosa concordância com este entendimento, por razões obvias. Porém, ele, ao descrever o porquê de sua crítica ao jornalismo hoje praticado, acertou no que viu e também no que não viu. Igual ao velho clichê “Mirou no padre. Acertou na igreja”.

Outro famoso foi, no meu entender, mais econômico e certeiro ao analisar a imprensa de seu país. O ator americano Denzel Washington, perplexo e preocupado como todo cidadão americano democrata, ao se deparar na era Trump com o uso e abuso dos chamados “Fake News”, disse “Se você não lê é desinformado; se lê é mal informado” vide link.

No penúltimo parágrafo do artigo citado no início, Rosane Borges arremata que "Donde podemos concluir que a crise é desse modelo de negócio que estruturou a imprensa monopolista e não do jornalismo. Faz-se urgente o exercício do jornalismo para além das fronteiras de um negócio que, para manter-se a todo o custo, atenta contra os princípios da própria imprensa.”

Digo eu, existe um hiato entre o fim de um modelo de jornalismo, pelas razões acima comentadas, e o não advento de outro que o substitua e transcenda suas bases. Até o momento, acredito que a internet não se constituiu como este novo paradigma jornalístico ainda que tenha potencialidade para tal.  Enquanto isso, prefiro ficar na condição de desinformado do que mal informado.

Vou me abastecendo através de revistas como CartaCapital, ainda comprometidas caninamente com a verdade dos fatos, como diz Mino  Carta,  e por via digital do jeito que dá e não do jeito que deveria ser o jornalismo nesta quadra do século XXI. Ciente e solidário com quem “está pagando o pato” por esta crise, em especial, a classe dos jornalistas e, na sequência, todos nós, leitores do tempo pré-internet, saudosos do tempo em que se começava o dia lendo jornal, e os leitores em potencial que são os jovens que ficam a deriva por falta de informação objetiva dos fatos.

Texto e imagem reproduzido do site: cartacapital.com.br

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Entrevista com Ricardo Kotscho

 Foto: Martin Carone dos Santos.

 Foto: Martin Carone dos Santos.

Redação do jornal O Estado de São Paulo (1973).

Ricardo Kotscho

“É preciso voltar a fazer o jornalismo de reportagem, contar histórias verdadeiras que acontecem no País, de bom e de ruim.”

Neste ano, um dos mais importantes e queridos jornalistas do País faz 50 anos de carreira. Aqui, ele conta um pouco dessa história.

Entrevista concedida a Francisco Ucha
Publicada originalmente no Jornal da ABI 401, de maio de 2014

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Jornal da ABI – Você começou muito cedo. Em 1964, tinha quantos anos?
Ricardo Kotscho – Dezesseis anos. Na época, não precisava de diploma. E não é porque eu era precoce, pois muitos começaram cedo. A nossa escola era a própria Redação! Era comum isso. Muitos fotógrafos começaram no Laboratório…

Jornal da ABI – E morava em Santo Amaro, não?
Ricardo Kotscho – Sim. Trabalhei na Folha Santoamarense e na Gazeta de Santo Amaro. Mudei de um para o outro no mesmo ano. A Folha Santoamarense era um jornal novo quando fui trabalhar lá e não agüentou, e antes de acabar fui para a Gazeta.

Jornal da ABI – Nessa época havia muito mais jornais de bairro do que hoje…
Ricardo Kotscho – Muito mais. Não só jornais de bairro, como grandes jornais diários, matutinos, vespertinos, tinha muito mais títulos do que hoje. A gente começava em jornal de bairro. Era como começar num time de várzea e, se acertasse, ir subindo até chegar num time grande.

Jornal da ABI – O que você fazia nesses jornais?
Ricardo Kotscho – Nos dois, eu era repórter, que era o que eu queria ser, e vendia anúncios, o que também era comum. No período da manhã, ou da tarde, vendia anúncios, no outro era repórter e, à noite, estudava.

Jornal da ABI – E como conciliava essas duas atividades, de repórter e de contato publicitário?
Ricardo Kotscho – No jornal de bairro não tem quase nada de política, o noticiário é composto mais por problemas urbanos, trânsito, vestibular, comércio. A minha área era a de anúncios de emprego, pois existiam grandes indústrias em Santo Amaro, e ainda existem. Isso não interferia nas matérias. Se fosse um jornal grande, seria um repórter local, de buraco de rua. Naquela época, nos grandes jornais, a parte comercial, da publicidade, era totalmente separada da Redação. Eram a Igreja e o Estado; não podia confundir. Isso hoje está caindo, cada vez mais o departamento comercial interfere nas Redações, em ações conjuntas.

Jornal da ABI – Mas os jornalistas não gostam muito dessa aproximação.
Ricardo Kotscho – Eu também não gostava, mas era o jeito de ganhar alguma coisa, porque a ajuda de custo como repórter era muito baixa, e vendendo anúncio dava mais.

Jornal da ABI – Três anos depois você já estava trabalhando num grande jornal, O Estado de S.Paulo.
Ricardo Kotscho – Entrei em 1967, saí em 1977 e fui para a Alemanha como correspondente do JB.

“Sempre fiz isso; era o que eu chamava de matéria humana, não ficava só no oficial. Nunca gostei de press release, da nota oficial; eu gostava de contar histórias.”

Jornal da ABI – O jornalista Audálio Dantas não se cansa de dizer que você foi um dos repórteres que fizeram a diferença no caso Herzog.
Ricardo Kotscho – Na época ainda havia censura, repressão, e o Audálio era o Presidente do Sindicato dos Jornalistas. Ele conta que os repórteres dos outros jornais passavam lá no Sindicato para pegar a “Nota do Sindicato”, que a Diretoria do Sindicato soltava todo dia, com as investigações, o que eles iam fazer… E eu ia lá fazer matéria, entrevistava todo mundo. Queria mais detalhes sobre o que estava acontecendo com a família, os amigos. Sempre fiz isso; era o que eu chamava de matéria humana, não ficava só no oficial. Nunca gostei de press release, da nota oficial; eu gostava de contar histórias. Ia lá fazer matéria como se fosse ao Sindicato dos Químicos, dos Metalúrgicos, dos Professores. Fazia matéria todo dia no jornal. Muitas vezes cortavam, porque tinha censura, mas eu fazia a matéria. E a ordem no Estadão era essa: ‘Vamos trabalhar como se não existisse censura. Vamos fazer nosso trabalho, quem faz a censura é o censor; a gente escreve, ele corta’.

Jornal da ABI – Teve muita matéria cortada?
Ricardo Kotscho – Muita. Um monte.

Jornal da ABI – Na íntegra?
Ricardo Kotscho – Às vezes na íntegra, às vezes um pedaço. Por exemplo, sabe aquele negócio da pirâmide invertida, que tem que abrir com o fato principal e depois vai entrando nos detalhes? Eu fazia o contrário. Começava com o clima, o ambiente, a sala, o barulho, alguma coisa assim, e as informações mais importantes eu deixava para o final, porque eu achava que o censor ia começar a ler, cansava e deixava passar alguma coisa.

Jornal da ABI – Isso era combinado com o editor?
Ricardo Kotscho – Sim, o editor sabia. Não era só eu que fazia isso. Dentro do jornal, todo mundo sabia que esse era um jeito de passar pela censura. Eu fazia por iniciativa minha, mas mais gente deve ter feito também. Eu não sei fazer matéria por telefone. Tenho pavor disso. Você não vê as pessoas, onde moram, onde trabalham, como é que é. Meu jeito de escrever matéria nunca foi o de seguir o manual, sempre fiz daquele jeito. Eu já fazia assim no Estadão, num estilo mais parecido com o do Jornal da Tarde, da Realidade. Eram os modelos da época, nos anos 1960. Surgiram na mesma época e foram, para mim, as grandes publicações de reportagem, que sempre foi a minha área. Hoje, trabalho também na revista Brasileiros, que está longe de ser uma Realidade – que era uma revista rica, da Editora Abril – mas a idéia é a mesma: fazer matérias sobre temas e personalidades que não estão na grande mídia.

Jornal da ABI – É difícil trabalhar na Brasileiros?
Ricardo Kotscho – É fácil, mas não tem recursos, e reportagem precisa de recursos. Um jeito que eu encontrei para fazer certas reportagens foi aproveitar as viagens que eu faço para dar palestras e fazer reportagens também. Porque quando se vai fazer palestras, pagam passagem e hotel. Então, isso é custo zero para a revista. A Brasileiros tem seis anos e já fiz um monte de matérias desse jeito, porque pra todo lugar que se vai no Brasil tem assunto. E eu falava, no final da palestra: “agora vocês me ajudem a achar um assunto para fazer a matéria, para justificar os dias que eu não estou trabalhando”. E sempre deu certo. Uma vez, fui para Roraima, bem quando estourou aquela briga dos plantadores de arroz e os índios. Aí, aproveitei e fiz uma matéria sobre isso. A revista nunca iria mandar um repórter para Roraima, porque é muito caro. Então, aproveitei a palestra e fiz a matéria. E aconteceu outras vezes.

Jornal da ABI – E as fotos, nesse caso?
Ricardo Kotscho – Para as fotos eu pegava alguém do lugar, freela, sempre tem. Às vezes do próprio evento que eu estava participando.

Jornal da ABI – De 1967, quando você entrou num grande jornal, até a data marcante do Herzog, foram nove anos escrevendo matérias em meio a uma enorme ditadura e repressão…
Ricardo Kotscho – Só um pequeno parêntesis: a repressão da ditadura só pesou mesmo a partir de 1968, do AI-5, que foi o golpe dentro do golpe. De 1964 a 1968 foi uma época rica do jornalismo em geral – por incrível que pareça –, do teatro, do cinema, da música. Mesmo com a ditadura, tinha uma efervescência cultural fantástica. Surgiram nessa época a Veja, a Realidade e o Jornal da Tarde…

Jornal da ABI – Marco Antônio Vila afirma que não houve ditadura entre 1964 e 1968…
Ricardo Kotscho – Houve, claro que houve. Muita gente foi presa, teve gente que morreu. O Marco Antônio Vila… (risos) Olha, outro dia fui convidado de um Roda Viva com Almino Afonso como entrevistado. O Vila, que também estava lá, começou a contar essas histórias, de que não houve ditadura, começou a falar um monte de coisas do João Goulart, do golpe. Aí o Almino disse: ‘Olha, você como historiador é muito criativo, você é mais um ficcionista, porque eu estava lá, nesse dia, nesse lugar, e não aconteceu nada disso’. Algumas pessoas, como o Vila, estão querendo reescrever a História… Ditadura branda, essas coisas. Havia a ditadura, mas a gente continuava trabalhando.

Jornal da ABI – No dia do golpe e nos dias subseqüentes, o que se viu nas ruas era a população apoiando os militares.
Ricardo Kotscho – Não, não. Antes do golpe, ocorreram as Marchas da Família. E depois, no Rio, teve a Marcha da Vitória. Mas o povão, mesmo, não tomou conhecimento. Mais ou menos como aconteceu na Independência e na Proclamação da República. Tem até uma expressão, que não é minha e não me lembro de quem é, de que o povo assistiu a tudo bestificado. Porque as marchas foram promovidas pela igreja Católica e pelas elites e a classe média de São Paulo e Rio de Janeiro; não foi uma coisa do povo. E poucos dias depois, acabou. Não houve resistência nenhuma. O Laurentino Gomes, que é um grande jornalista e historiador, tem três livros fantásticos – 1808, 1822 e 1889. Neste último, ele fala da proclamação da República e faz um paralelo com a campanha das Diretas em 1984. Ele diz que a verdadeira República no Brasil começou na campanha das “Diretas já”, que foi a primeira participação popular na política e na História do País.

Jornal da ABI – Que você cobriu de ponta a ponta…
Ricardo Kotscho – Eu cobri de ponta a ponta na Folha. Acho que eu fui o único repórter que pegou, do começo ao fim, a campanha das Diretas no Brasil inteiro.

Jornal da ABI – Teve alguma restrição para cobrir as “diretas”?
Ricardo Kotscho – Não, ao contrário. Havia um movimento social popular, forte em São Paulo, e eu cobria mais a área da luta social, sindicatos, movimento contra a carestia, pela anistia, havia vários movimentos simultâneos nessa época. E começaram a falar nesse negócio de diretas, daqui e dali. Aí teve um primeiro comício em frente ao Pacaembu, no final de 1983, na Praça Charles Miller, que juntou de tudo, teve até um ato de solidariedade à Nicarágua, e esse foi o primeiro comício maior das Diretas. Era uma festa; tinha um monte de coisas. Mas foi ali que começou. Então, escrevi para o Frias (Octavio Frias), que era o dono do jornal, uma sugestão de pauta dizendo que aquilo que estava acontecendo nas ruas era muito importante e que o jornal deveria se empenhar, não só cobrir, mas apoiar mesmo a campanha, e ele topou na hora e deu uma ordem para o jornal fazer isso – sucursais, correspondentes, todo mundo. E, realmente, a Folha se engajou na campanha das diretas abertamente, até o fim. E não havia, ao contrário do que normalmente acontecia, nenhuma restrição de gastos. Eu podia gastar o quanto, onde e com o que quisesse, e tudo o que eu escrevia era editado.

Jornal da ABI – O Frias não era jornalista, mas tinha uma intuição…
Ricardo Kotscho – O próprio Frias dizia que não era jornalista: “Eu sou empresário e vocês são jornalistas”. Só que ele tinha um faro muito aguçado, que muitos bons repórteres têm, e ele percebeu que ali era um bom negócio para o jornal, que a Folha vinha crescendo, vendendo mais, mais influente, mas faltava uma bandeira, uma coisa que se destacasse, e ele viu na campanha das Diretas essa oportunidade de dar um salto, e foi o que aconteceu. A partir daí, no final da campanha, a Folha passou a ser o maior jornal do País e o de maior circulação, e é até hoje. Desde 1984, é a Folha. Claro que ele tinha um interesse empresarial, mas foi o momento de identificação da Redação com a direção, que é raro. Havia o mesmo objetivo, de redemocratização do País.

Jornal da ABI – Mais ou menos o que aconteceu no Estadão quando se recebeu a ordem de “vamos fazer o nosso trabalho e os censores que façam o deles”?
Ricardo Kotscho – A diferença é que nessa época já não havia a censura prévia do governo, mas havia a autocensura nas empresas, jornais, televisão… Eles tinham medo dos militares. Então, o que aconteceu é que no começo era só a Folha que cobria, dava cobertura ampla e diária. O velho Frias falou isso: “Quero matéria todo dia, não só em dia de comício, todo dia tem que ter matéria”. E tinha que se virar para fazer. Os outros jornais foram entrando aos poucos, quando a campanha ganhou uma dimensão maior. À medida que os comícios foram acontecendo, aumentado a quantidade de gente nas ruas, obrigava os jornais, revistas e televisões a cobrir também. Primeiro foi a TV Manchete, depois a Bandeirantes, e por último, a Globo, que só entrou na reta final.

Jornal da ABI – A ordem do Frias e essa cobertura que a Folha fez, a partir de sua sugestão, ajudaram a mobilizar a sociedade?
Ricardo Kotscho – Seria muita pretensão minha falar isso porque fui eu que dei a idéia, que tomei a iniciativa como repórter mesmo, percebendo que aquilo rendia matéria, mas acho que teve influência sim, porque eu não só cobria a coisa, como procurava ajudar, ia às reuniões. Quando a coisa caía um pouco, procurava personagens fora dos partidos, lideranças da sociedade civil, fazia uma entrevista com alguém importante apoiando a campanha das Diretas.

Jornal da ABI – Alguma pauta foi difícil de fazer?
Ricardo Kotscho – Não, não… (pausa) Eu tive uma dificuldade, nunca vou esquecer, em São Luís do Maranhão. Porque lá, os líderes da campanha das Diretas – Ulysses Guimarães, Lula, Brizola – desceram o cacete no Sarney – você vê como é a vida, né? (risos) Ele já era, naquela época, o grande cacique do Maranhão…

Jornal da ABI – E da Arena!
Ricardo Kotscho – Sim, da Arena. E, na época, não existia celular. Então, tinha que passar a matéria ou de um orelhão, que era um negócio complicado por causa do barulho da Redação no horário de fechamento, ou de alguma Redação de jornal local…

Jornal da ABI – E os telefones não funcionavam bem!
Ricardo Kotscho – Pois é, era complicado, caía linha, era um sufoco. Então, eu procurei a Redação de um jornal local e, para o meu azar, entrei no jornal do Sarney, acho que era o Estado do Maranhão. E quando eu estava passando as informações por telefone, da Redação, as pessoas ouviram o que eu estava falando e ficaram olhando feio. “Como é que o cara vem aqui falar mal do Dr. Sarney?” (risos) Mas, terminei de passar a matéria! A dificuldade maior naquela época não era de emplacar a matéria, era transmitir, fazer a matéria chegar à Redação.

Jornal da ABI – Em algum momento, na época da ditadura, teve que driblar a direção do jornal para conseguir publicar uma matéria? Os proprietários dos jornais cerceavam algum assunto?
Ricardo Kotscho – Na Folha não, porque eu entrei lá em 1980 e já não havia censura, mas tive vários problemas no Estadão, onde peguei o período mais pesado da censura. E, além da censura do governo militar, havia interesses muito fortes da empresa. Um exemplo foi uma matéria sobre conflito de terras em Rondônia, um problema crônico. E o chefe do Incra local, que era um militar, estava indignado com o que ele viu lá e me passou os documentos, denunciou tudo. E eram famílias aqui de São Paulo, fazendeiros que estavam grilando terras.

Jornal da ABI – Um militar denunciou?
Ricardo Kotscho – Era o chefe do Incra local. Porque tinham os militares torturadores, mas também havia os militares sérios, empenhados, nacionalistas, nesses cargos. Aí eu fiz a matéria, com nomes e tudo, documentos, e deu a maior confusão no jornal. Vieram me perguntar se eu tinha provas, e eu disse que tinha tudo, um bolo de coisas. E, para azar meu, algumas daquelas famílias citadas eram ligadas à direção do jornal. Pessoas próximas. “Eu não vou mudar nada, porque é isso mesmo, tenho provas”. No dia seguinte, desmentiram a matéria. Num box, na última página do jornal, deram: “Ao contrário do que publicamos ontem, tal e tal…”

Jornal da ABI – Mas como a matéria chegou a ser publicada se havia esses “problemas”?
Ricardo Kotscho – Aí é que está. É um engano imaginar que o dono do jornal lê tudo antes de publicar. Ele lê depois. É impossível, hoje em dia, com o número de informações e de pessoas que participam do processo, que o dono do jornal acompanhe tudo. É inviável. Como é inviável, ao meu ver, o controle social da mídia. Não tem como. Acontecia muito isso, a matéria saía e dava problemas no dia seguinte.

Quando foi isso?
Ricardo Kotscho – No começo dos anos 1970. Mas sobrevivi. Arrumei brigas, mas nunca fui demitido de jornal nenhum. Eu é que “demitia” as empresas quando não estava legal e ia para outro lugar. (risos) Mas na Folha aconteceu uma coisa curiosa. Quando fui trabalhar lá, foi depois do Jornal da República que foi uma experiência do Mino Carta que não deu certo…

Jornal da ABI – Excelente jornal! Grande projeto do Mino Carta!
Ricardo Kotscho – Era muito legal! Uma puta experiência! Mas, não deu certo… Aí o Frias levou uma parte dessa equipe para lá, inclusive o Cláudio Abramo, que tinha saído da Folha e voltou, e indicou alguns nomes. Eu não conhecia o Frias, e ele me chamou para conversar: “É, seu Kotscho, tenho umas informações aí, o Cláudio me falou, que você escreve bem e quero que você venha trabalhar aqui”. Acertei lá o salário, e ele disse: “Olha, aqui não é o Estadão. Aqui não tem lista negra nem lista branca. Não tem ninguém que seja proibido de ser citado em matérias e ninguém que você é obrigado a falar. Eu só te peço uma coisa: não faça matérias sobre a Estação Rodoviária, porque é minha”.(risos) E era um rolo no centro da cidade, uma confusão de trânsito. A estação era dele e do Carlos Caldeira Filho, que era o sócio dele. Os dois eram donos da Estação Rodoviária que ficava em frente à Estação da Luz, onde tem a Sala São Paulo. Eu me identifiquei muito com o jeito do velho e até brinquei com ele: “Não, ‘seu’ Frias, não se preocupe, porque eu não ando de ônibus”. E era perto da Folha, algumas quadras. Nunca ele proibiu um assunto ou cortou uma matéria. Nunca. E sofreu pressões. Uma matéria que fiz sobre a Receita Federal, o chefe da Receita na época ligou para ele, e ele bancou até o fim. Ele só perguntava: “Tem provas? Está bem fundamentado? Então, publica”. E, muitas vezes, era ele quem mandava fazer a matéria! Muitas vezes!

Jornal da ABI – Faz falta gente na imprensa como o Frias?
Ricardo Kotscho – Ah, falta, falta! Faz uma falta enorme. Não tem mais. Não tem nem dono, que hoje é chamado de ‘publisher’, e nem diretores de Redação com peso, com força. Tive a sorte de pegar, nos anos 1960, 1970 e 1980, Cláudio Abramo, Alberto Dines, Samuel Wainer, Clóvis Rossi. Eu não posso me queixar da vida, pelo contrário. Acho que é por isso que eu consegui chegar aos 50 anos de profissão trabalhando em três empregos. Eu tenho o blog no portal R7, que hoje é um dos maiores do País, sou comentarista na Record News, no jornal do Heródoto Barbeiro, que é um jornal muito bacana – ele é uma figura fantástica. E trabalho na revista Brasileiros até hoje. Acho que devo muito disso às pessoas com quem convivi e trabalhei. Hoje é difícil repetir essa história porque não tem mais essas figuras.

Jornal da ABI – Não é por causa disso que o jornalismo impresso está perdendo a força?
Ricardo Kotscho – Eu acho que é um dos motivos, mas não é só isso. Até porque os grandes jornais são também donos dos grandes portais da internet. Acho que não é a internet que está matando a imprensa de papel. Está havendo um suicídio da imprensa de papel. Você tem que se diferenciar dentro da sua mídia, a de papel, e se diferenciar das outras mídias eletrônicas. Hoje está tudo muito parecido, muito igual. Você lê o noticiário da internet do Globo, Estado e Folha, durante o dia, e pega o jornal do dia seguinte e é a mesma coisa! E o que é pior: as notícias são as mesmas! E pior ainda: o enfoque é o mesmo!

“Há meia-dúzia de chefes, cargos de confiança, que determinam o que o jornal vai fazer e o que vai dar no dia seguinte, já bolam a manchete do jornal às nove horas da manhã e o repórter virou um caçador de aspas.”

Jornal da ABI – Isso é o pior de tudo, não?
Ricardo Kotscho – É o pensamento único, a pauta única. Antigamente, a competição, a concorrência dentro das empresas se dava no campo da reportagem, ter a história que o outro não tem, dar o furo que o outro não tem. Era muito em cima do trabalho do repórter para diferenciar um jornal do outro. Claro que cada um tinha suas posições políticas, mas havia uma diferença fundamental no noticiário e na parte da reportagem. Hoje não tem mais! É pensamento único, pauta única, se aceita o prato-feito e o repórter virou um ser subalterno nas Redações, quando antes havia uma briga por bons repórteres. O cara saía de um lugar para outro para ganhar mais. Hoje não tem mais isso. Não existe mais. Quem manda é a pauta, é o jornalismo de tese. Há meia-dúzia de chefes, cargos de confiança, que determinam o que o jornal vai fazer e o que vai dar no dia seguinte, já bolam a manchete do jornal às nove horas da manhã – a não ser que aconteça alguma tragédia – e o repórter virou um caçador de aspas para justificar aquela tese. Se ele voltar para o jornal vários dias seguidos trazendo informações que contradizem aquela tese ele está ferrado, e sabe disso. Então, não precisa ninguém chegar para ele e dizer que tem que falar disso, ou não pode falar aquilo… Não precisa, porque está implícito. O cara que hoje vai trabalhar na Veja já sabe o que pode e o que não pode fazer; como é que ele sobe lá dentro. E como não tem mais uma luta coletiva que une os profissionais – hoje é cada um por si –, o controle ficou muito maior. Antigamente, quando uma empresa fazia demissões de vários profissionais – o que era até chamado de ‘passaralho’ –, quase havia uma rebelião na Redação, tinha reunião no sindicato. Não é mais assim. Nos anos 1980, na Folha, nós criamos a Comissão de Representantes da Redação, que eram eleitos nas Redações e tinham estabilidade durante o mandato, que era de um ano. Então, qualquer coisa que acontecia na Redação, a gente ia discutir com o dono, até mesmo a linha editorial. Havia uma participação dos jornalistas no produto, que não existe mais. E não havia essa ditadura da pauta, que determina o que o jornal vai dar. O repórter é que tinha que trazer a pauta, que vinha da rua para a Redação. E o que é pior: antigamente havia duplas de repórter e fotógrafo, que saíam sempre juntos, às vezes com o mesmo motorista de reportagem, que é outra figura que desapareceu. O que acontecia? A gente ia fazer uma matéria e descobria outro assunto. Podia largar aquela que a gente tinha e fazer a outra, ou fazer as duas. Era comum isso. O exemplo é a campanha das Diretas. Ninguém chegou para mim com uma pauta, foi um negócio que eu vi na rua e trouxe para a Redação. Isso não tem mais. E o profissional não briga mais pela pauta. Antes, o repórter tinha que brigar para fazer a matéria; depois tinha que brigar pelo espaço, para publicar a matéria. E não é sacanagem, nem censura; é porque tinham cem matérias para publicar, onde cabiam trinta. Aí, se brigava por um espaço na primeira página.

Jornal da ABI – Era uma briga diária.
Ricardo Kotscho – É. Hoje não tem mais isso. O repórter nem fala com o editor. Eu sempre fazia um negócio que chamava de ‘jornal falado’, que é quando eu vinha da rua cheio de histórias e falava com o editor, ‘vendia’ minha pauta para ganhar espaço, para ganhar destaque na página. Na minha última passagem pela Folha, a terceira, foi em 2000, já tinha mudado tudo, já tinha Manual de Redação, aquela coisa toda. E eu fui falar com o editor para dizer o que eu tinha, e ele falou: “Agora estou em horário de fechamento, manda por e-mail”. Nunca fiz isso porque acho que é uma perda de tempo. Escrever um resumo da matéria para mandar por e-mail. Eu escrevia a matéria, mandava e ia embora, ia para o bar.

Jornal da ABI – E a matéria era toda publicada?
Ricardo Kotscho – Às vezes tinha problema de tamanho. Naquele caso, o editor publicou. Ele só não queria perder tempo comigo. Imagina, um editor conversar com um repórter… Para você ter uma idéia do respeito que havia, pelo menos comigo, é que eu sempre tive o defeito de escrever muito. Qualquer matéria que me davam, qualquer bobagem, eu tentava transformar numa boa história. (risos) Um dia eu exagerei, e às onze horas da noite me liga o Otávio Frias Filho, que hoje substitui o ‘Seu’ Frias, e é o Diretor de Redação: “Kotscho, tivemos um problema com a sua matéria, estourou tudo, tivemos que cortar, veja se você concorda…”, eu disse “O que você cortar está bom”. Geralmente corta-se pelo pé. Mas não era uma censura pelo que eu tinha escrito; era porque estava muito grande. Só tive problema de censura, com toda a franqueza, no Estadão. Não tive em nenhum outro lugar, nem no JB, nem na Folha, nem na IstoÉ. Trabalhei em quase todos os lugares, só não trabalhei na Veja.

Jornal da ABI – A autocensura no Estadão era persistente ou era eventual?
Ricardo Kotscho – Era desagradável, porque havia uma interferência grande dos proprietários na Redação, e que se tornou maior depois que a censura saiu. Porque enquanto havia censura, eles estavam tranqüilos, porque os caras vinham e cortavam mesmo. Quando a censura saiu, eles é que passaram a exercer o controle. Aí, deu uma crise grande lá e saiu boa parte da Redação em 1977, quando eu fui para a Alemanha.

Jornal da ABI – A ditadura fechou muitos jornais, onde havia diversidade de opinião. Será que isso não contribuiu de fato para que a mídia hoje seja tão padronizada?
Ricardo Kotscho – No começo houve uma pressão muito grande sobre alguns jornais que fecharam em função disso, como o Correio da Manhã, no Rio. Mas depois, o Jornal do Brasil fechou agora nos anos 1990, e não teve nada a ver com a ditadura, foi um problema administrativo.

Jornal da ABI – Sim, claro. Mas os jornais alternativos, como o Movimento e o Opinião, não poderiam ter crescido e se tornado grandes jornais que dariam pluralidade de opinião à atual imprensa?
Ricardo Kotscho – Participei disso também, trabalhei no Movimento e no Opinião; mas eram jornais de uma época, datados… Mas você tem razão, eles poderiam existir até hoje. Dos grandes jornais, um que fechou por ação direta da ditadura foi o Correio da Manhã.

Jornal da ABI – A TV Excelsior também…
Ricardo Kotscho – Sim, é verdade. O pessoal da Excelsior foi para Globo, que tinha vindo da Tupi, assim como uma grande parte da Redação do JB, que foi o melhor jornal do País disparado durante uns bons anos, está hoje no Globo. Temos hoje três jornais nacionais: Estado, Folha e Globo, e mais o Valor Econômico, que está crescendo. Mas são das mesmas famílias.

“Um sujeito parou em frente à casa dela, bateu palmas e jogou um saco de lixo no quintal e disse: ‘Isso aí é o que sobrou do teu marido’, e foi embora.”

Jornal da ABI – Você estava com um problema com os militares quando foi convidado para ser correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha. Conte como esse convite chegou em tão boa hora…
Ricardo Kotscho – Eu fiz duas matérias que tiveram uma repercussão muito grande.

Jornal da ABI – Com uma delas você ganhou o Prêmio Esso…
Ricardo Kotscho – Sim, das mordomias. Não fui só eu, foi uma equipe. Fui coordenador de uma série de reportagens sobre os abusos dos tecnocratas, dos militares, na ditadura, em 1975, 1976, mais ou menos na época do Vlado. Teve uma repercussão enorme e, naquela época, todos os jornais de São Paulo tinham setoristas no 2º Exército. O setorista do Estado era meu amigo. E ele vinha me falar que a barra estava pesando para o meu lado, que era melhor dar um tempo; falava para evitar de assinar as matérias. Algum tempo depois, mataram, nas mesmas circunstâncias do Vlado, um operário chamado Manoel Fiel Filho, e isso era uma denúncia muito delicada, porque na morte do Vlado o Geisel veio para São Paulo e advertiu o Ednardo d’Ávila Mello, então comandante do 2º Exército em São Paulo: “Se acontecer de novo, eu demito todo mundo”. E aconteceu. Só que esconderam o caso. E não sei como, o Clóvis Rossi, que era o chefe de reportagem, ficou sabendo, me chamou e pediu para que eu investigasse isso para confirmar. Eu tinha a informação de que mataram um operário nas mesmas circunstâncias do Vlado e só tinha o endereço da fábrica onde ele trabalhava, o nome e mais nada. Aí fui à fábrica, e todo mundo com medo de falar, mas consegui que me dissessem pelo menos onde era a casa do operário. Cheguei à casa e não tinha ninguém. Vazia. Perguntei para os vizinhos onde estava a viúva e também ninguém queria falar, porque naquela época havia o medo! O medo é que mandava em tudo, não só nas Redações, em todo lugar. E um vizinho me falou que sabia que a viúva tinha um parente que morava em tal lugar, perto de uma padaria. Era umas cinco ou seis horas da tarde e eu falei para o fotógrafo: “Vamos arriscar, vamos até a padaria e a gente toma uma cerveja lá”. E na hora em que estávamos na padaria, passa um cara na calçada com um crucifixo pequeno no peito. Quando os padres deixaram de usar batina, passaram a usar um pequeno crucifixo. Ele deve ser o padre, deve ser ligado à Igreja. Me apresentei a ele, disse que era da Comissão de Justiça e Paz, trabalhava no Estado de S.Paulo e estava procurando a tal viúva. Ele me falou: “Acabei de sair da casa em que ela está, falei com ela agora”, e me levou lá. E facilitou as coisas, porque, claro, ela tinha medo de falar, mas o padre falou que eu era de confiança, gente da igreja, e era mesmo, era amigo do D. Paulo (Evaristo Arns). Por coincidência, anos depois, D. Paulo me chamou para participar do livro Brasil Nunca Mais, que foi a grande denúncia dos crimes praticados pelos militares de torturas e mortes, até hoje é a grande obra de referência, e participei disso também. Mas, voltando ao Fiel Filho, levantei a história toda. Tem uma passagem dramática, de como a viúva ficou sabendo da morte do marido, quando um sujeito parou em frente à casa dela, bateu palmas e jogou um saco de lixo no quintal e disse: “Isso aí é o que sobrou do teu marido”, e foi embora. Eram os documentos e as roupas dele. Aí eu escrevi a matéria e a direção do jornal quis saber do Clóvis Rossi se os outros jornais também iam dar aquelas informações. E o Rossi disse: “Não, só nós temos”. “Então, é perigoso!”. A censura tinha acabado de sair do jornal, quando o jornal fez cem anos, saiu a censura prévia, mas continuavam as proibições. Aí a direção só autorizaria a publicação da matéria se o repórter assinasse e assumisse a responsabilidade. Aí o Rossi me falou essa decisão da direção do jornal… E não tinha saída. Eu queria que saísse, que fosse publicado! Mas, na hora não lembrei que minha mulher já estava grávida e havia um clima tenso nas Redações; foram presos vários amigos na época. Eu nunca fui preso. Mas falei: “tudo bem, toca pra frente!”, e a matéria saiu. E os conselhos e ‘recados’ que eu recebia, aumentaram. O Geisel veio para São Paulo e demitiu Ednardo d’Ávila Mello e a cúpula do Segundo Exército. Foi aí que começou o processo de abertura lenta e gradual, foi um divisor de águas. Consegui levantar a história e contar…

Jornal da ABI – Você não tinha medo?
Ricardo Kotscho – Pô! Eu sempre fui cagão! Então, quando falam que o repórter tem que ser um cara atirado, que enfrenta, vai e fura tudo, eu nunca fui assim! Sempre tive medo de tudo. Sempre acho que não vai dar certo! (risos)

Jornal da ABI – Mas como você teve essa coragem sabendo que sua mulher estava grávida?
Ricardo Kotscho – Pra você ver… É que não foi bem ‘coragem’; é que eu queria que saísse a matéria, sabia que era importante ser publicada, que aquilo poderia ter um efeito bom na redemocratização do País. Mas eu posso te contar um episódio também que é ao contrário. Quando teve a missa do ato ecumênico do Vlado na Praça da Sé, a catedral estava cercada pelo Exército, polícia, aquele negócio todo… Minha mulher já estava grávida… Fiquei com medo de entrar na igreja e voltei para a Redação. Porque não faria nenhuma diferença eu estar na igreja ou não. Esse é o limite que eu acho da coragem e do medo. Se aquilo que você faz é temerário, mas pode ser uma coisa boa para a sociedade, você corre o risco. Mas, se é só para marcar presença, para dizer que esteve lá, não… Então, fui embora, não cheguei a participar do ato ecumênico.

Jornal da ABI – Durante a cobertura do assassinato do Vlado, como administrava o seu medo?
Ricardo Kotscho – Todo mundo tinha medo, não era só eu, mas era um negócio que tinha que enfrentar. O Audálio, que foi um líder naquele momento, também tinha medo. Mas você aprendia a conviver com o medo, fazia parte do dia a dia. Até fiz uma brincadeira besta com o Audálio. Começaram a prender um monte de jornalistas, antes de matarem o Vlado, aí pararam. E eu fiz um comentário uma vez, durante um jantar com os amigos, eu disse assim: “Acho que alguma coisa eu fiz de errado, porque estão prendendo todo mundo e não me pegaram…” Quer dizer… Era esse o clima. Porque se tivesse o meu nome na caderneta de endereços de alguém que fosse preso, eu ia preso também. As pessoas eram presas aleatoriamente! Na classe da minha mulher, que estudava na Usp, sumiam alunos de um dia para o outro! Desapareciam!… A gente não tem idéia, hoje, do que foram aqueles tempos!

Jornal da ABI – E como acontece o convite para ser correspondente na Alemanha?
Ricardo Kotscho – Essa história é engraçada. A maioria das coisas que aconteceram comigo ocorreu por acaso, como eu viria a ser assessor de imprensa do Lula por acaso. Essa história da Alemanha foi o seguinte: foi a época do acordo nuclear Brasil-Alemanha. O Estadão tinha mandado para lá um cara muito bom, que depois se tornou meu amigo, o William Waack, que está aí até hoje. Ele era correspondente do Estadão e dava furo nos outros jornais todo dia, porque falava alemão. A Dorrit Harazim, que é uma grande jornalista do Rio dos áureos tempos do JB, era chefe dos correspondentes internacionais do Jornal do Brasil. Ela queria um jornalista que soubesse escrever bem… Porque isso sempre ajuda (risos), e que soubesse alemão. E eu era um dos poucos que falava alemão, foi a minha primeira língua; eu só aprendi o português na escola, com seis, sete anos. Em casa só se falava alemão, eu nasci aqui, mas em casa a gente só falava alemão. E falava bem o alemão, mas era juvenil, porque depois eu não falei mais. Nunca vou esquecer, ela pediu para o José Roberto Guzzo – com quem ela tinha trabalhado na Veja e que era diretor de Redação da revista – para me convencer a aceitar o convite! (risos) E quando ela começou a falar, eu já louco para sair do Brasil – iria para qualquer lugar! –, não precisava nem ter trazido o Guzzo para me convencer; já estava aceito! (risos) E o salário era bom, as condições eram ótimas. Naquela época, o Jornal do Brasil era a Seleção Brasileira do Jornalismo. Pagavam aluguel, passagem livre, cartão, enfim, era igual ser embaixador. Quando eu fui contratado pelo JB, teve um almoço e me falaram que ser correspondente do Jornal do Brasil era como ser um embaixador do Brasil na Alemanha. Muita responsabilidade. Eu não tinha nem trinta anos!

Jornal da ABI – Você passou pelos melhores jornais em suas melhores épocas!
Ricardo Kotscho – Tem uma frase antiga que diz que você tem que estar no lugar certo na hora certa. Mas, ao mesmo tempo, você não pode estar no lugar errado na hora errada. E nem sempre isso depende de você. Muitas vezes depende de sorte, de circunstâncias. Então, eu dei um tempo, fui para a Alemanha, fiquei uns dois anos, e voltei para trabalhar com o Mino Carta na IstoÉ, no início do crescimento do movimento sindical do ABC. Na época da anistia. Tudo estava acontecendo! E na IstoÉ tinha absoluta liberdade, porque o dono era um jornalista, o Mino Carta, que me escalou para cobrir o ABC. Eu virei correspondente no ABC. “Toda semana eu quero uma matéria”. Como depois o Frias fez, querendo todo dia matéria das Diretas, ele fez com o ABC… As greves, Lula, aquele negócio todo. A primeira entrevista com o Lula quem fez foi o Mino. Foi capa da IstoÉ. Ele dizia: “O que acontecer no Brasil daqui pra frente vai passar pelo ABC e esse tal de Lula aí vai ser importante!”. Mino tem um faro incrível. Ele é incrível! Depois fui para o Jornal da República, que foi a mesma equipe que passou para lá, e depois a Folha, que eu já falei.

Jornal da ABI – Você começou a levar sua filha Mariana para as Redações a partir de quando?
Ricardo Kotscho – Eu trabalhava no Estadão durante a semana – o Estadão não saía às segundas-feiras – quando saía um negócio chamado Edição de Esportes de O Estado de S.Paulo, um jornal semanal que circulava às segundas-feiras. Então, na verdade, eu trabalhava de domingo a domingo, até sábado no Estadão, e domingo nessa edição esportiva.

Jornal da ABI – Você cobria esportes também?
Ricardo Kotscho – Também. O pessoal que trabalhava aos domingos às vezes levava os filhos, porque era o dia de ficar com a família, e quando a minha filha cresceu um pouco, passei a fazer isso também, nos plantões de fim-de-semana, e ela começou a pegar gosto. Além disso, eu levava os amigos para casa depois do trabalho, porque a gente saía tarde e estava casado com filho, não podia mais ir para a boate, para a noite (risos). Aí, eu levava os vagabundos para casa e a gente ficava bebendo até de madrugada. E a Mariana ficava acordada, de colo em colo. Ela passou a conviver com esse mundo do jornalismo e acabou virando jornalista.

Jornal da ABI – Então, você é diretamente culpado por ela ser jornalista.
Ricardo Kotscho – Eu acho… E tenho orgulho disso porque, geralmente, o jornalista não tem. “Meus filhos não vão fazer isso, não vou deixar!” Mas para mim foi ao contrário, fiquei feliz pra caramba! Eu acho o Jornalismo uma profissão fantástica, apesar de todos os problemas que tem. Outro dia me perguntaram sobre o mercado de trabalho, se é difícil para quem começa, mas hoje é muito mais amplo. Enorme. Claro que tem uma oferta maior também de profissionais, das faculdades.

Jornal da ABI – Mas o salário não caiu muito?
Ricardo Kotscho – Não, isso é outro mito.

Jornal da ABI – Mesmo nos portais da internet?
Ricardo Kotscho – Os salários na internet hoje são iguais ou maiores que nas Redações dos grandes jornais. Não todos… Tem o piso, mas o piso do jornalista é maior que o de muitas profissões. Uma vez fizeram uma comparação no jornal do Sindicato dos Jornalistas – não sei os números de hoje –, mas o salário inicial de jornalista era maior que o de engenheiro, de advogado, de médico. O mercado de trabalho se ampliou enormemente, inclusive com a internet, assessorias de imprensa – hoje tem mais gente nas assessorias de imprensa do que nas Redações. E, para mim, é uma função jornalística, sim. Quando trabalhei como assessor de imprensa com o Lula, nas campanhas, trabalhei como jornalista. Ele até brincava comigo: “Você não é assessor de imprensa, é assessor da imprensa”. (risos)

Jornal da ABI – Você se decepcionou com o Lula?
Ricardo Kotscho – De jeito nenhum. Não me decepcionei nem com o Lula nem com o governo, muito pelo contrário. Foi um governo importantíssimo para o Brasil, a vitória do Lula foi a vitória da minha geração – nós temos quase a mesma idade – e melhorou a vida da maioria do povo. Qual é o objetivo de qualquer governo? Melhorar a vida da maioria das pessoas. E nunca houve uma melhoria tão ampla, que incorporou tanta gente no mercado de trabalho e no mercado de consumo como aconteceu nos dez anos de governo do PT. Isso não quer dizer que eu concorde com tudo, pelo contrário! Já naquela época eu discordava e brigava bastante, mas acho que a função do assessor é essa, como eu brigava com o meu chefe de Reportagem, e com meu editor.

Jornal da ABI – E como o Lula recebia as suas críticas?
Ricardo Kotscho – Ele não gostava não. Mas ele me respeitava. Então, era de igual para igual. É claro que eu não discutia com ele na frente dos outros. Mas quando estávamos só os dois discutindo algum assunto, eu tinha toda a liberdade de falar. Eu era autorizado a entrar no gabinete dele a hora que eu quisesse, não precisava pedir licença. Isso facilitou muito o meu trabalho. Se fizer um balanço dos prós e contras, acho que foi amplamente favorável, tanto o governo do Lula como a continuidade. Luis Fernando Veríssimo tem uma frase que eu acho fantástica. Ele escreveu: “Realmente, o governo tem muitos problemas, muita coisa errada, que eu não concordo. Mas quando eu olho para o lado e vejo quem são os outros…” (risos). Não é? Porque uma eleição é uma opção, e um governo é uma opção. Para quem vai governar? O Brasil era governado para 30 milhões de pessoas. Hoje é para muito mais gente, pra mais de 100, 120 milhões, a grande maioria. E essa foi a grande mudança, a distribuição de renda. É uma revolução sem armas, sem tiros, silenciosa, mas que vai ficar marcada na História do Brasil, não tenho dúvida disso.

Jornal da ABI – É possível definir o que é jornalismo?
Ricardo Kotscho – Jornalismo é muito chato definir, mas para mim é contar o que está acontecendo com a maior honestidade possível. Esse negócio que falam de neutralidade e isenção, isso não existe. O ser humano tem suas preferências. Agora, não dá para brigar com os fatos. Todo mundo sabe que eu sou ligado ao PT desde as origens, desde antes do PT, lá nos sindicatos, sou amigo do Lula, mas eu sou, antes de tudo, jornalista. O que eu conto tem que ter credibilidade. Caso contrário, não sirvo para nada. Eu falava isso quando estava no governo. Se eu mentir, se eu der uma informação errada, eu não sirvo nem para a imprensa e nem para o governo. E isso vale para uma Redação e para qualquer lugar em que se trabalhe. Tem que ser honesto. Não existe a verdade absoluta, não existe uma só verdade. Mas não se pode brigar com os fatos. A partir dos fatos, cada um de nós depois vai contar da sua maneira, mas não pode mentir. Esse é o limite.

“O governo não deve ser ombudsman da imprensa. Ao mesmo tempo, não pode a imprensa ser o principal instrumento de oposição no País. É uma deformação da democracia, dos dois lados.”

Jornal da ABI – Como a imprensa recebeu a notícia quando o Lula o escolheu como assessor?
Ricardo Kotscho – Eu me dava muito bem com todo mundo. Eu não tenho inimigos, tenho uma boa relação e acho que a função do Secretário de Imprensa é manter uma boa relação com a imprensa. Essa foi uma das minhas divergências. Eu sempre fui mais da conversa, da conciliação, do que partir para o enfrentamento, como aconteceu depois e acontece até hoje. É uma guerra inglória essa, porque a última palavra é sempre da imprensa. O governo passa, mas as famílias ficam. São as mesmas desde 1964, ou desde muito antes. Então, o governo precisa conviver com a imprensa, como precisa conviver com o Congresso Nacional. É claro que você nunca vai ter um Congresso que concorda com tudo o que o governo faz, mas precisa conviver com a oposição, com quem pensa diferente. O que acontece no Brasil é que a própria imprensa assumiu o papel de oposição. A Judith Brito, ex-Presidente da ANJ, falou isso com todas as letras. Com uma oposição partidária muito fraca e frágil, os meios de comunicação foram obrigados a fazer oposição, e fazem. Eu acho que está errado. O governo não deve ser ombudsman da imprensa. São campos diferentes, naturezas diferentes. Ao mesmo tempo, não pode a imprensa ser o principal instrumento de oposição no País. É uma deformação da democracia, dos dois lados.

Jornal da ABI – Foi uma tacada de mestre o Lula ter te chamado?
Ricardo Kotscho – Não, nesse caso não. Ele teve várias, mas não nesse caso. (risos) Algumas delas: o Henrique Meirelles, o Palocci, na área econômica. No meu caso, foi uma conseqüência natural. Por ser amigo, ele me chamou para a primeira campanha, chamou para a segunda, chamou para a campanha de 2002 e, naturalmente, acabei nesse lugar. Mas tem uma coisa curiosa: eu fiquei sabendo que seria Secretário de Imprensa com uma bronca… Lula já eleito, e eu estava no comitê de eleição uns quinze dias depois dos resultados, quando ele me perguntou: “O que você está fazendo aqui ainda?”. Eu continuava trabalhando como assessor. “Mas, você tem que estar em Brasília. Você não leu no jornal que começou a transição?”. Fernando Henrique e Lula montaram uma equipe de transição. E eu respondi: “Mas ninguém me avisou”. “Então, trate de ir para Brasília! Vá lá e procure a Ana Tavares…” – que era a Secretária de Imprensa do Fernando Henrique – “…converse com ela, se informe como é que funciona aquele negócio e vá cuidar da transição na sua área”. Não foi um convite. Foi uma seqüência do trabalho que eu tinha feito nas campanhas.

Jornal da ABI - Nas manifestações de 2013, muitas pessoas começaram a filmar e publicar coisas ao vivo na internet e se autodenominarem ‘repórteres’. O que você achou disso?
Ricardo Kotscho – Olha… Vou ser bem franco. Eu acho que tem lugar e espaço para todo mundo. Hoje, com as novas tecnologias, novas mídias, todos nós somos, ao mesmo tempo, emissores e receptores de informações. Emissores podem ser institucionais, na grande imprensa, nas Redações, e os informais, que são esses que você falou, que estão lá com suas câmeras e microfones fazendo o trabalho deles. Mas, por mais que existam os informais, uma sociedade democrática, civilizada, nunca poderá abrir mão do jornalista profissional. Até porque, como hoje a gama de informações é imensa, é preciso alguém para organizar isso, com honestidade, conhecimento e capacidade profissional. Na internet tem de tudo, coisas boas e ruins, ofensas, calúnias. Hoje, se quiser destruir alguém, uma empresa, um governo, mete na internet. Mas, já estão começando a punir, saiu há pouco tempo uma regulamentação. Mas, os jornalistas podem ficar tranqüilos; eu acho que isso não vai tirar o emprego deles, dos bons jornalistas. Vai haver uma seleção natural, os jornais vão sobreviver a meu ver, os grandes pelo menos, mas serão menores, de circulação menor, com equipes menores, não vão mais existir Redações de 200, 300 pessoas. Mas os bons jornalistas vão continuar na chamada grande mídia, ou irão criar seus próprios canais, como muitos já estão fazendo, com blogs, portais, sites, ou trabalhar em assessoria de imprensa. Não vai faltar mercado para o jornalista. E esse negócio da mídia ninja, da mídia informal, é um fenômeno mundial e a sociedade brasileira tem que aprender a conviver com isso. E a imprensa também. Como eu falei antes, não é a internet que está acabando com a mídia tradicional ou familiar. É preciso voltar a fazer o jornalismo de reportagem, contar histórias verdadeiras que acontecem no País, de bom e de ruim. Porque não é possível que num país como o nosso, com 200 milhões de habitantes, oito milhões e meio de quilômetros quadrados, não aconteça nada de bom de um dia para o outro. Tem que mostrar a realidade como ela é. E o que acontece no Brasil hoje não é isso. Lendo os jornais, você pensa que o País está se acabando. Você pega qualquer jornal ou telejornal e tem vontade de dar um tiro na cabeça. É por aí.

Jornal da ABI – Você está entusiasmado com o seu blog, não é?
Ricardo Kotscho – Estou gostando muito. É uma segunda vida profissional. Te confesso que eu não tenho mais paciência nem saúde para trabalhar numa grande Redação, nem para fazer campanha ou trabalhar no governo. Detesto velho que quer parecer jovem, moderninho. Mas acho que é preciso se adaptar a cada tempo… E o tempo hoje é esse, não tem escolha. É como quando os computadores entraram nas Redações, não tem escolha. Colocaram a máquina na sua mesa e você tem que usar, pô. Tem gente que até hoje escreve na máquina de escrever. O Mino Carta, por exemplo. A secretária dele tem que passar tudo a limpo. Mas vou dizer uma coisa: o computador ajuda muito. Você escreve mais rápido e pensa mais rápido. No tempo do jornal de papel, eu gostava de entregar a lauda limpa, não gostava de entregar lauda rabiscada e corrigida. Então, cada vez que eu errava, começava tudo de novo. Demorava muito. Agora não, vou escrevendo, corrigindo e mudando ao mesmo tempo. Nunca mais escrevi à máquina. Nem à mão eu consigo escrever mais. Uma brincadeira que faço com o Clóvis Rossi – ele é um excelente datilógrafo, acima de tudo – é que ele escreve mais rápido do que pensa. Ele é famoso por isso. É o teclado mais rápido da imprensa brasileira.

Texto e imagens reproduzidos do blog: doispontosblog.wordpress.com