quarta-feira, 24 de maio de 2017

Jornalista Mino Carta, da revista semanal CartaCapital

Clique no link abaixo, para assirtir ao vídeo com Mino Carta.

Veja como foi encontro de Mino Carta com jornalistas.

Jornalistas conversam com Mino Carta sobre crise política no Brasil e mercado editorial brasileiro.

Por Nocaute em 23 de maio de 2017.

Mino Carta recebe Eleonora Lucena, Fernando Morais, Luis Nassif, Luiz Carlos Azenha, Miro Borges, Paulo Henrique Amorim e Rodrigo Vianna para entrevista.

Na segunda-feira (22/5), Mino Carta anunciou que estava escrevendo seu último editorial. “Só voltaria a escrever se as diretas fossem convocadas sem maiores delongas e se, finalmente, a justiça fosse feita”.

No editorial intitulado Sonho e realidade, Mino Carta escreve que sua ausência não significa o abandono da “pequena e valente equipe de CartaCapital” e afirma que “estamos asfixiados financeiramente por um governo ilegítimo, sabidamente corrupto, e pelo abandono de setores do empresariado que outrora tinham maior compromisso com a diversidade e a pluralidade.”

Leia abaixo o texto completo:

“Sonho e realidade

Diretas antecipadas são a solução inteligente e pacífica, mas a casa grande vai resistir

Os fados costumam arcar com um papel importante, às vezes decisivo, na história do Brasil. Em meio ao caos precipitado pelo golpe de 2016 irrompe o elemento-surpresa de sorte a abrir uma perspectiva para a saída da crise. A solução correta, pacífica e inteligente, está na convocação de eleições diretas antecipadas no prazo mais curto possível. Ao povo a palavra final.

Não faltam pedras neste caminho, a se considerar que as instituições da República inexistem, enquanto os senhores da casa-grande cuidarão, conforme a tradição manda, de conciliar seus interesses com a nova conjuntura.

Houvesse condições de confiar nos poderes republicanos, contássemos com Legislativo e Judiciário à altura da situação, poderíamos apostar em um retoque constitucional capaz de reduzir ao mínimo o tempo de um governo provisório eleito indiretamente para logo alcançar o momento das diretas.

Corremos o risco, contudo, de ter de padecer a súbita presença no Planalto de Cármen Lúcia, por exemplo, ou Nelson Jobim. Pasmem: talvez Fernando Henrique. E que tal Henrique Meirelles?

Não duvidemos que seja este o projeto de saída acalentado pelos golpistas e não nos deixemos enganar se a mídia nativa se apressasse a abandonar o barco que soçobra. Trata-se de um específico barco, e não do transatlântico das prepotências e das artimanhas da casa-grande.

Os barões midiáticos saberão instruir editorialistas, colunistas, repórteres, âncoras, locutores, no sentido que lhes convém, a eles apenas e não ao País.

Nos corredores da casa-grande ouve-se murmurar os nomes mais cotados para reger a orquestra do futuro e ninguém como Henrique Meirelles, o homem para todas as estações, seria mais adequado para a manutenção do projeto de país até hoje comandado por Michel Temer.

Diga-se que aos infinitos atributos de Meirelles soma-se o de ter sido presidente do conselho de administração da holding da JBS, de 2012 a 2016. Sublinho, JBS, a empresa do Joesley, o grande acusador do momento.

A capa de Veja pós-depoimento de Lula na República de Curitiba tem a força altamente simbólica de toda a ferocidade, no nível extremo e mais vulgar, que o ódio de classe pode atingir no Brasil do golpe de 2016. A campanha das Lojas Marisa por ocasião do Dia das Mães não deixa por menos. E é fácil imaginar os aplausos que saudaram as duas iniciativas e os cumprimentos calorosos recebidos pelos autores, celebrados por sua genialidade.

Vivemos um estado de exceção em que tudo se permite impunemente. A casa-grande manda sem intermediários, ao contrário da ditadura da segunda metade do século passado, que entregou aos militares o serviço sujo. Assenhorou-se das instituições e fez delas suas aias, valeu-se da colaboração dos milenaristas curitibanos e confirmou a mídia nativa no departamento de propaganda. Os jagunços prontificam-se a vestir uniforme policial.

E os barões midiáticos são titulares da mansão, representada País afora, uma das suas dependências se estabelece no Rio de Janeiro nas cercanias da Lagoa Rodrigo de Freitas e em São Paulo às margens fétidas do Rio Pinheiros. Dali reinam os senhores Marinho, e ganham, inclusive, a genuflexão de políticos que se dizem de esquerda: o apoio do plim plim é indispensável à sua ascensão. Vale acrescentar que uma entrevista nas páginas amarelas de Veja também é muito valiosa.

Em diversas passagens dos governos de Lula e Dilma, a Secom virou antessala da Globo, enquanto CartaCapital era definida revista chapa-branca por praticar o jornalismo com o respeito devido à verdade factual, embora punida por um critério técnico que na Inglaterra teria fulminado The Economist. Nem se fale dos tempos do ministro Paulo Bernardo. Como propagandista das vontades da casa-grande, a mídia esbalda-se agora, fiel à tarefa de semear o ódio contra o operário ousado além da conta e do seu partido.

Escrevi mais de uma vez neste espaço que a vitória de um ex-metalúrgico nas eleições de 2002 representava um divisor de águas na história do Brasil, ao inaugurar uma nova estação política em busca da democracia autêntica, até então impedida pela monstruosa desigualdade social. Iludia-me, como já se dera inúmeras vezes. Mudança houve, contudo, no sentido oposto e o Brasil correu vertiginosamente no rumo do passado remoto.

Neste cenário, e com tais personagens, ainda há quem suponha viver em um recanto digno da contemporaneidade. Nutrem os pretensos letrados a certeza de que convivem aqui direita e esquerda, como se houvesse ideologias vivas além daquela da predação.

Sim, haverá um ou outro conservador, ou liberal à moda antiga, algum respeitável leitor de Marx e Gramsci, assim como há os generosos e solidários leitores de CartaCapital. Mas a dicotomia criada à sombra da Revolução Francesa nas nossas paragens, sobretudo nesta quadra da história, não tem a mais pálida chance de medrar.

Não sei se teremos a ventura de assistir à reedição da campanha das Diretas Já de 1984. Reuniu milhões em ruas e praças, foram as primeiras, fluviais manifestações populares movidas pelos mais dignos intuitos. Recordo, porém, e com pesar, que José Sarney, futuro presidente da República, foi quem comandou no Congresso a rejeição da emenda das diretas por uma vantagem de dois votos apenas.

Nos dois mandatos de Lula, o País tornou-se protagonista na ribalta da política mundial, hoje passa a figurar no coro grego dos desgraçados. Os vendilhões da pátria que dizem amar, conforme convém aos canalhas, cuidam de assegurar-lhe a condição de súdito de algum império. E quem haverá de impedi-los? Por ora, não é imaginável a revolta das ruas.

Dizia um grande brasileiro, exceção obviamente, Joaquim Nabuco, que não bastava abolir a escravidão, seria preciso acabar com a cultura da escravidão, caso contrário o Brasil padeceria mais três séculos de prepotência e atraso. Palavras escritas há bem mais de cem anos, tragicamente proféticas.

Manter a maioria neste limbo, neste prematuro oblívio, foi o objetivo da chamada elite, sempre eficaz nos seus intentos, como costumava sublinhar Raymundo Faoro. Sábia apenas no empenho de manter de pé a casa-senzala e a senzala, ao mesmo tempo incapaz de entender que o povo é um tesouro do País, a par das inúmeras dádivas oferecidas pela natureza.

História dolorosa até o absurdo absoluto dos dias de hoje, sem descurar de variados aspectos da situação. Elite cada vez mais ignorante, grosseira, exibicionista, feroz. Podemos entender a resignação de quantos trazem nos lombos a marca da chibata, assim como podemos perceber a índole e os humores da chamada elite ao confrontar os senhores atuais com aqueles desenhados por Debret, enquanto escravos agitam sobre suas cabeças leques descomunais. São exatamente os mesmos.

CartaCapital certamente apoiaria a candidatura de Lula se a razão acabasse por triunfar e vingasse a solução das eleições antecipadas. Um destacado juiz italiano, Gerardo Colombo, integrante da força-tarefa da Mani Pulite, na qual Sergio Moro diz inspirar-se, veio ao Brasil no ano passado para entender de perto o funcionamento da Lava Jato.

No regresso à Itália disse textualmente ao amigo Antonio Vermigli: “Se Mani Pulite tivesse se portado como o juiz Moro, nós é que teríamos acabado na cadeia”. Vermigli é um carteiro toscano que, depois de aposentado, tornou-se respeitado ativista político e bom amigo de Lula, e como tal participou de uma recente reunião na Câmara dos Deputados em Roma com os advogados do ex-presidente, chamados a expor irregularidades e absurdos jurídicos cometidos pela República de Curitiba.

Sinto muito comunicar aos nossos fiéis leitores que este é o meu último editorial, só voltaria a escrever se as diretas fossem convocadas sem maiores delongas e se, finalmente, a justiça fosse feita. Minha ausência neste espaço não significa que abandono a pequena e valente equipe de CartaCapital, de honestos praticantes do jornalismo, tanto mais em um momento de dificuldade extrema. Estamos asfixiados financeiramente por um governo ilegítimo, sabidamente corrupto, e pelo abandono de setores do empresariado que outrora tinham maior compromisso com a diversidade e a pluralidade”.

Texto reproduzido do site: nocaute.blog.br

terça-feira, 2 de maio de 2017

Entrevista de 2005, com o jornalista Mino Carta

 

Publicado originalmente no site Jornalistas & Cia., em 02 de Maio de 2017.

Protagonistas – Como está sendo 2005 para a Carta Capital? Como a revista vai fechar o ano?
Mino Carta – Ainda não tenho os dados completos, mas a revista cresceu substancialmente em tiragem, assinantes, páginas de publicidade. Eu acrescentaria também em prestígio – a revista chega a todos os lugares aos quais deve chegar.

P – Ela tira 72 mil exemplares?
MC – Sim. É claro que, por suas próprias características, ela não é uma publicação de larguíssima tiragem. Mesmo que tivéssemos fartos recursos para atapetar a cidade de outdoors, para fazer propaganda no horário nobre da Globo, ainda assim dificilmente a revista passaria de 120 mil exemplares. O que é normal, porque ela se destina a um público muito especial, preocupado com a política, com as questões centrais do País. Creio que é uma boa tiragem, segundo essas características, está crescendo e vamos fechar o ano muito bem. O principal é que não temos dívidas, coisa notável num país em que todas as empresas de comunicação estão quebradas. Os nossos empresários de mídia, em geral, são de uma incompetência sublime, muito ruins, perdulários, exibicionistas, como, aliás, a nossa elite. São perfeitos representantes de uma elite que jogou fora um patrimônio imenso, extraordinário, que se chama Brasil.
P – Mas as empresas estão agora numa situação melhor do que no passado. A Abril, a Folha, o Estadão já equacionaram suas dívidas...
MC – Eles dizem. O Estadão pôs para fora os senhores Mesquita, o que provavelmente já representa um avanço notável, porque melhora a situação. Quem sabe um dia a Folha consiga jogar fora os senhores Frias. No dia em que esses senhores deixarem essas empresas, em que elas tiverem uma direção corporativa que atenda aos critérios da meritocracia, pode ser que dê certo. Mas, por enquanto, não é isso o que acontece. Eu acredito mesmo que o falecimento do doutor Roberto Marinho tenha representado um avanço notável para a Globo, por exemplo.

P – Para 2006, qual é o cenário? Teremos Copa do Mundo, eleições, que são eventos de muita audiência.
MC – Isso pode, pelo menos, resolver certos problemas. Porque deve haver elevação das tiragens. Possivelmente um interesse especial publicitário de colocar páginas específicas, por exemplo, para o futebol, que é uma coisa que empolga o País... Ainda, né? (risos)

P – Os jornalistas, que integram uma categoria muito crítica e cética por natureza, o consideram um dos profissionais mais respeitados e admirados do País. Você ganhou diversos prêmios de Comunicação, sempre eleito por uma base que é muito crítica. Não lhe parece um paradoxo, ser uma pessoa tão querida e, ao mesmo tempo, tão crítica da própria atividade?
MC – Obrigado pela distinção... (ri, mostrando um certo embaraço) Bem, não sei se sou tão querido assim... Sinceramente, não tenho uma opinião sobre isso. É claro que ganho aí umas boas razões para ficar contente. Apesar da minha postura crítica em relação ao jornalismo brasileiro, nem por isso deixo de ser apreciado pelos colegas – ou, pelo menos, por um bom número de colegas. Isso é muito bom. Mas acho que a crítica – que é uma função do jornalista, o jornalista tem que ser crítico –, não tem que ser necessariamente destrutiva. (Isso me faz lembrar o tempo do regime militar, quando os milicos insistiam muito na idéia de que a crítica devia ser construtiva.) A crítica pode ser tanto destrutiva quanto construtiva, mas é sempre importante, útil. Mesmo em certas ocasiões em que pode ser virulenta demais, exagerada. A verdade factual às vezes embasa a crítica e a torna necessariamente forte e bem posta. Por exemplo: qualquer comparação que se faça entre qualquer jornal brasileiro e grandes jornais do mundo vai ser dolorosa. Nosso jornalismo até hoje pratica o colunismo social, que, como postura, é uma coisa pífia, que me faz lembrar o fim de 1700, começo de 1800.

“A crítica – que é uma função do jornalista, o jornalista tem que ser crítico –, pode ser tanto destrutiva quanto construtiva, mas é sempre importante, útil. Mesmo em certas ocasiões em que pode ser virulenta demais, exagerada. A verdade factual às vezes embasa a crítica e a torna necessariamente forte e bem posta.”

P – Você não vê mérito algum na nossa imprensa?
MC – Ela serve ao poder. Esse é o mérito dela. Vivemos uma conjuntura em que a mídia está massivamente contra o Governo Lula, simplesmente porque os senhores do País não querem que ele se reeleja. Não estou entrando no mérito das qualidades do Lula. Não sou filiado ao PT, mas quero ser isento no julgamento dos fatos. O mensalão não foi provado. No entanto, a mídia se porta como se tivesse sido. Basta ver os jornais todos os dias. Alguns, então, são de uma agressividade monstruosa. A Veja, por exemplo, nas suas diatribes semanais contra o Lula, é um espanto. É um péssimo jornalismo, porque se baseia em nada, em fumaça. Outro dia, a Veja deu uma capa dizendo que o Lula recebeu dinheiro do Fidel Castro. E a matéria era baseada num disse-que-disse que só poderia ser provado por um falecido. Que coisa maravilhosa! Isso é jornalismo? Não, isso é uma vergonha, como diria o Boris Casoy.

P – Qual é a melhor imprensa, das que você conhece?
MC – A inglesa e a italiana, como qualidade literária, capacidade de crítica, agilidade. A francesa não é lá essas coisas. A espanhola tem bons jornais, El Pais e El Mundo. Não são necessariamente jornais que espelham as minhas posições, mas não importa. Em São Paulo circula uma edição incompleta do Corrière della Sera, que ainda assim é o jornal que hoje o Brasil faz melhor. (risos) Aliás, os jornalistas brasileiros, se lessem o italiano, se favoreceriam muito lendo um jornal perfeito, mas cujas posições não são as minhas.

P – Como reflexo da crise do ensino, temos hoje muitos profissionais despreparados no mercado. O que fazer para lidar com isso, para melhorar essa situação?
MC – Não consigo imaginar a mídia fora da moldura do País. A mídia é um espelho do País, como é de praxe. Pensem, por exemplo, no que foi o Brasil nos anos 40 e 50, nas pessoas que pensavam o País, que imaginavam o futuro, que tentavam desenhar os destinos da terra: Gilberto Freyre, Raimundo Faoro, Sérgio Buarque de Hollanda, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, enfim... As marchinhas de carnaval eram primores, muito inteligentes, muito refinadas. Os textos da música brasileira eram muito bons, a chamada música popular era de excelente qualidade. Nelson Rodrigues era um encanto, Stanislaw Ponte Preta era um encanto; até as “certinhas” dele eram uma coisa muito boa. Pensem nesse país e confrontem-no com o de hoje. Uma falta de graça absoluta. Pensem na nossa elite, nessa turma que vive aí, com seus carros blindados, de vidros escuros para que não se enxergue o interior, levantando as muralhas romanas que cercam as suas vivendas, amestrando cães para que fiquem à porta das suas casas... Mais de 50 mil brasileiros morrem assassinados todo ano. Então, por que a mídia haveria de ser melhor do que essa situação? Acho que as pessoas não se dão conta da gravidade da situação, de como a cada ano nós pioramos. A promessa é que este ano cresceremos 3%. A Folha fez uma matéria patética, dizendo que o Lula vai ter um trunfo, que será a política econômica. Por quê? Porque, assim diz a matéria, de Figueiredo a Fernando Henrique o Brasil cresceu, em média, por ano, abaixo de 3%, e, com o Lula, cresce acima – 3,11%!!! (risos) É a conversa do roto com o esfarrapado! O Brasil tem que crescer 5% para ficar na mesma! O Kirchner enfrentou o Fundo Monetário e a Argentina cresceu mais de 8% este ano. A Índia cresce 8% ao ano há muito tempo, é uma das grandes potências mundiais, tem bomba atômica, faculdades extraordinárias, uma elite preparadíssima. Nós estamos vivendo uma tragédia e não nos damos conta. Eu vou ao Gero e a outros restaurantes aí, vejo as pessoas que me cercam e parece que elas estão em Nova York, a expressão delas é a de quem está em Nova York. Estão muito felizes, a economia vai bem. Pra quem? Pro doutor Setúbal? Pra ele vai muito bem...
Acho perfeitamente admissível que a mídia brasileira pudesse ser excelente. Precisaria mudar os patrões. Aliás, vocês entrevistaram o Otavinho. Para mim, o Otavinho não é um jornalista. E não seria em qualquer país civilizado. Ele é um patrão, que se arrogou, se atribuiu, estabeleceu ser jornalista. É uma prepotência inaudita. É um patrão, que paga o salário dos outros e os outros têm um medo pavoroso de perder o emprego – que, aliás, escasseia, como sabemos. Realmente existe muita gente que teria todas as condições de produzir uma mídia de excelente qualidade, não tenho dúvidas quanto a isso, mas precisaria mudar os patrões, mudar os conceitos. Precisaria acabar com essa elite grotesca que jogou fora o patrimônio Brasil e começar tudo de novo. Se não acontecer isso, não tenham dúvida: o País continuará indo para trás. Isso é absolutamente inevitável, é inexorável, está escrito.

P – Nesse universo, como você lida com a equipe de Carta Capital para que ela seja uma ilha de excelência?
MC – Nós temos gente boa. Basta oferecer a essa gente boa as condições de fazer um jornalismo decente, um jornalismo baseado nos princípios justos e indispensáveis para a sua prática: o respeito pela verdade factual; o espírito crítico, desabrido, constante; e a fiscalização do poder, mas sem deixar, nunca, de levar em conta a verdade factual. Digamos: o mensalão não foi provado. Por que é que tem gente, até professores de Direito, mestres de leis, que pedem o impeachment do Lula? Isso é inacreditável! Não aconteceria na Inglaterra, na França, num país moderno e civilizado. Do meu ponto de vista, o Governo Lula é um desastre, mas por razões outras: por estar cuidando das finanças do Olavo Setúbal, estar entregue ao deus mercado, por executar pontualmente as injunções do Fundo Monetário Internacional. Eu esperava que o Governo Lula fosse capaz de iniciar alguma mudança, por mais tênue que fosse. Como isso não está acontecendo, não acho legal. Mas, mensalão, corruptos? O maior corrupto da história do Brasil é o Fernando Henrique Cardoso. Tem o caso Sivam, tem as privatizações; aquilo foi uma coisa inacreditável. Sem contar os senhores que saíram do governo e se locupletaram à larga. Perguntem ao senhor Pérsio Arida e ao Mendonção quanto dinheiro eles têm hoje. Ou ao senhor André Lara Resende, que está em Londres, galopando no Hide Park... belíssimos cavalos puro sangue árabes. Eram pés-rapados, que de repente viraram ricaços. O Governo do Fernando Henrique Cardoso, este sim, foi o mais corrupto da história do Brasil.

P – Como é o seu dia-a-dia na Carta Capital? Vem todos os dias?
MC – Sim, mas trabalho pouco, o mínimo possível... (risos)

P – Tem bastante gente...
MC – Não, não tem bastante gente. Somos onze profissionais, ao todo, para fazer uma semanal. Incluindo o Leandro, que está em Brasília, o Maurício Dias, no Rio. Eu tento trabalhar o mínimo possível, mas nem por isso deixo de trabalhar. Até porque o trabalho me mantém vivo.

P – E fora da revista, o que você tem feito?
MC – Tento viajar um pouco... O mais possível, também. Para a Itália. Depois Paris, Londres.

P – E para os Estados Unidos?
MC – Eu já fui muito aos Estados Unidos. Hoje não. Tenho uma visão, talvez, peculiar dos Estados Unidos: eu gosto muito da Costa Oeste. Acho, por exemplo, Los Angeles uma cidade muito interessante, porque fica em cima de um abismo. É um lugar onde nunca chove, tem muito sol, mas o mar é muito frio. Tem uma situação de contradições fortes muito interessante. Em compensação, tem a Flórida, tem Miami. (risos) Vocês sabem que, aqui, a burguesia nativa, quando sai de seus catres, quando cai da cama, se joga de bruços no chão com a cabeça voltada para Miami, Coral Gables, né? (risos)

P – Você lê?
MC – Pouquíssimo... Li muito quando era novo. Hoje leio pouco, o mínimo possível... também. Sempre o mínimo possível ou o máximo possível. (risos)

P – O quê? Revistas, livros, jornais?
MC – Eu não leio nenhum jornal brasileiro. O pessoal me informa e me indica o que ler. E sou um expert em leitura oblíqua – não é dinâmica, é transversal.

P – Você falou de fazer o mínimo possível de muitas coisas. O que você faz com o tempo que sobra?
MC – Medito, uso para reflexão. O pensamento voa, transita pelas zonas aéreas...

P – Nenhum livro no prelo?
MC – Comecei a escrever o terceiro livro, mas por hora está parado.

P – Autobiobrafia?
MC – Não, não... Autobiografia é sempre nas entrelinhas. Esse terceiro livro não seria autobiográfico. É claro que quem escreve sempre conta a si próprio, mas esse livro não teria nada de autobiográfico. Nem sei se vou concluí-lo.

P – A propósito, você também não tem pintado. Parou há, o quê, uns cinco anos?
MC – Faz nove anos. Na primeira metade de 1996, eu estava preparando uma exposição no Exterior. Tinha feito uma exposição em 1995, em Antuérpia, e o pessoal de lá queria fazer uma exposição em Dusseldorf, que seria em 1997. Eu estava trabalhando, mas aí aconteceram coisas na minha vida muito dolorosas, naquele momento parei de pintar e faltou vontade para recomeçar. (Nesse momento, Mino mostrou-se bastante emocionado; Nota da Redação: em 1996, faleceu Angélica, esposa de Mino e grande amor da vida dele)

P – Numa das suas muitas entrevistas, você declarou que uma das suas pretensões era, primeiro, ser santo, e depois pintor...
MC – Ou escritor. Realmente, quando tinha oito ou nove anos eu achava que o ideal seria ser santo. Mas não deu... (risos) Aí eu queria ser pintor ou escritor, porque jornalista eu não queria ser. Meu pai era jornalista, meu avô era jornalista, eles falavam de jornalismo o tempo inteiro e eu achava uma coisa chata. Além de tudo, há uma parte de mim mesmo que me leva a pensar que um dia é igual ao outro, que as personagens que você acaba cobrindo na atividade jornalística são sempre as mesmas. Às vezes mudam os nomes, mas são as mesmas personagens, sempre. São três, quatro tipos básicos e você encaixa quem quer que seja nesses tipos. Então, é uma chatice, não é divertido. Jornalismo é muito chato, mas muito chato.

P – E você não conseguiu se livrar disso...
MC – (risos) É que quando eu tinha 15, 16 anos, ia muito aos bailes de sábado e achava que se tivesse um terno azul-marinho – porque a gente ia aos bailes de terno e gravata – o meu desempenho melhoraria extraordinariamente. Aí surgiu a oportunidade de escrever uns artigos, eu escrevi, ganhei um dinheirinho e fiz o terno azul-marinho. A felicidade era acessível. E o terno azul-marinho funcionou. (risos)

P – Isso foi quando? Na Copa do Mundo?
MC – Estou com 71 anos... Quando recebi a proposta de escrever esses artigos, foi novembro ou dezembro de 1949. Portanto, eu tinha ainda 15 anos. O Mundial foi em 1950... Aliás, eu estava no Maracanã naquele dia trágico, do Uruguai, do gol do Gighia...

P – A história do terno foi na Itália?
MC – Não, foi aqui. Cheguei com 12 anos.

P – Mas você voltou um tempo para a Itália, para estudar, fazer pintura?
MC – Estudar, não. Acabei pintando lá, fiz uma exposição, participei de várias coletivas, mas eu fui para a Itália quando tinha 22 anos. Passei dez anos longe da Itália. Aí surgiu a oportunidade de trabalhar lá, em jornal, e fiquei mais ou menos três anos e meio.

P – Como uma família de jornalistas, os seus filhos seguiram os seus passos...
MC – Coitadinhos...(risos) É uma sina. Os meus filhos, o meu irmão, os filhos do meu irmão... É uma coisa trágica... (risos)

P – O seu filho é correspondente em Paris...
MC – Quando o Gianni tinha 15 anos, foi estudar fora do País e nunca mais voltou. Mas eu acho que ele tem alguma chance de escapar dessa sina trágica, embora não seja mais nenhum garoto, já tem 41 anos. Escreveu dois livros, está escrevendo o terceiro, é Master em Ciências Políticas e vai ser Phd pela Universidade de Londres. Já poderia lecionar na Universidade de Londres com o nível que tem.

P – Ele escreveu um livro de reportagens muito interessante...
MC – Ele é ótimo. E está escrevendo um livro para a Universidade de Londres que acho que vai ser muito importante: “A criação do mito de Garibaldi”. Acho que ele tem alguma chance de escapar... E minha filha, Manuela Carta, de alguma maneira, está escapando, está virando uma empresária. Não sei se é uma dádiva dos céus, mas ela está virando uma empresária. (risos)

P – A propósito, vamos falar sobre sucessão. Você já tem 71 anos, está com todo o vigor, mas como será a Carta Capital pós- Mino?
MC – Não sei... Isso nunca passa pela minha cabeça. As coisas se ajeitam automaticamente. Não adianta pensar muito nessas coisas.

P – Não planeja? Não discute isso com a sua filha?
MC – Nada! Nem passa pela nossa cabeça a idéia de discutir essa possibilidade. É claro que ela é contemplada automaticamente, mas não é algo que preocupa. Ninguém é indispensável e ninguém é insubstituível.

P – Você não tem a preocupação de que a revista continue nas mãos da sua família, da Manuela?
MC – Não. Depois de mim, o dilúvio ... (risos)

P – Mesmo não pensando na sucessão, você pensa em parar? Na aposentadoria?
MC – Não, não! Mas quê aposentadoria! Por quê? Não há nenhuma razão para pensar em aposentadoria.

P – Ainda nessa rota de futuro, o jornalismo impresso – as revistas aí incluídas – aparentemente continua com muito prestígio, mas está perdendo leitores, na média mundial. Todos nós sabemos que morrem leitores de veículos impressos a toda hora e que nascem internautas. Na sua opinião, que papel caberá à mídia impressa no futuro? Ela tem chances de continuar influenciando gerações de formadores de opinião?
MC – Estou longe de ser futurologista. E também esta é uma questão que não me preocupa muito. No entanto, eu confio na idéia de que o que está escrito permanece e que palavras soltas voam. Então, acho que a escrita é insubstituível para expor certas idéias; isto não se consegue destruir. Mas não ousaria vaticínios maiores. E também não sei qual é o futuro do homem, né? Me parece que os homens mais contemporâneos, mais atentos ao que acontece, estão muito preocupados com o próprio destino do ser humano. Desse bicho imprevidente, que criou a sua própria ratoeira, muito além do risco, digamos, da energia atômica usada na guerra ou coisas desse tipo. Muito pior do que isso, existe para o mundo o risco criado pela imprevidência do homem. Os pensadores mais contemporâneos aventam a possibilidade de que o mundo desapareça porque o homem desaparece.

P – É por isso que você continua escrevendo na sua Olivetti?
MC – Não, não... (risos) É que o progresso tecnológico me espanta. Não é uma posição ideológica. É porque eu sou muito limitado e não quero esse tipo de inovação, não me interessa. Não tenho e não uso celular, por exemplo. Nunca tive um fax em casa.

P – E nunca teve necessidade?
MC – Nenhuma. E continuo não entendendo por quê. O professor Belluzzo, meu companheiro de aventuras, tem dois celulares, que tocam ininterruptamente, os dois ao mesmo tempo. Meu Deus, é um tormento! Ele inventou uma maneira de torturar a si próprio. Porque antes vivíamos sem celulares e eventualmente vivíamos muito bem. Aquele aparelhinho não era um fator determinante nas nossas vidas.

P – E a sua relação com a internet?
MC – Zero. Não chego nem perto do computador.

P – Nem pra dar uma olhada no site da Carta Capital?
MC – De jeito nenhum! Nem morto! (risos) Tenho certeza de que, um dia ou outro, esses computadores vão engolir os seus usuários. O vídeo vai se abrir com uma bocarra e engolir o usuário. Aquele cara que fica lá, tec, tec, tec, desaparece e se faz o silêncio. (risos) Falavam da força hipnótica da televisão. Imagine! É brincadeira, em comparação...

P – Ao mesmo tempo, com a carga jornalística que você tem, por força das circunstâncias, acabou sendo dono do seu próprio negócio, que é a Carta Capital. E ela tem uma relação com a internet, a sua equipe tem uma relação com a internet...
MC – É problema deles! (risos) Primeiramente, eu, até hoje, me recuso a aceitar a idéia de que sou dono do meu negócio. Eu brigo pelo meu salário porque preciso dele; sem o salário não sobrevivo.

“Recuso-me a aceitar a idéia de que sou dono do meu negócio. Eu brigo pelo meu salário porque preciso dele; sem o salário não sobrevivo.”

P – E quando precisa comprar equipamentos?
MC – Digo: façam o que quiserem, o problema é de vocês. Precisa comprar mais dez computadores? Comprem. Precisamos mudar de gráfica porque essa não funciona tão bem... Façam! Eles me falam coisas e eu não ouço. Eu digo sim, sim, claro, perfeito, e vamos em frente... Não tenho nenhuma vocação de empresário, nenhum talento para isso. Já fui sócio do Domingo Alzugaray, no tempo da primeira IstoÉ, mas nunca me interessei por aquilo, por problemas técnicos, de dinheiro, de administração, venda de páginas publicitárias. Não tenho a menor idéia, faço o meu trabalho. A minha preocupação é o conteúdo, como sempre foi.

P – Há alguma coisa no jornalismo que você ainda não fez e que gostaria de fazer?
MC – Não, não. Não sei... Lá pelas tantas, achei que São Paulo mereceria ter um diário bom, contemporâneo do mundo, não essas porcarias que estão aí...

P – O Jornal da República...
MC – É. Eu dou risada desses jornais. Peguem a Folha e comparem com os jornais do mundo e vocês vão dar risada, se forem isentos. Então, eu achava que seria bom, mas precisa muito dinheiro para fazer um diário. Mesmo fazendo como eu vi fazer jornais na Europa, com redações de 30 pessoas; 30 pessoas fazem um jornal. Nós fazemos uma semanal com 11 jornalistas. A Veja tem 100, 150. Houve tempo em que as sucursais de Brasília dos chamados grandes jornais brasileiros tinham 100 pessoas, só na Redação. A sucursal de Roma de um jornal de Milão tem quatro jornalistas. E resolvem tudo.

P – Mas na montagem de Veja e do Jornal da Tarde, também não eram redações muito grandes na época?
MC – Eram. Mas eram os hábitos das casas. O Jornal da Tarde menos, certamente, do que a Veja. A Veja saiu com 120, 130 pessoas, de cara, mas chegou a ter muito mais. Hoje o Estado tem 500 jornalistas trabalhando lá dentro, entre graúdos e miúdos. São coisas impensáveis. Por isso é que essa gente está quebrada. São perdulários. Se você tem profissionais bons... E eu não acho que, no Brasil, você não possa ter profissionais bons. Há profissionais excelentes. Eu sempre trabalhei com equipes excelentes.

P – Ao longo da história, a gente viu muitos jornais quebrarem, até bons jornais, ou pelo menos jornais de uma certa repercussão. Também ficaram pelo caminho grandes empresas, como Matarazzo, Villares. Com esses jornais poderá acontecer a mesma coisa?
MC – Poder, poderá... Mas eles conseguem resistir, embora estejam todos endividadíssimos. A Abril, por exemplo – que não faz jornais, mas faz revistas –, tem um buraco de 400 milhões de dólares. Quem resiste com um buraco desses? Mas eles resistem, não sei como. São milagres do passivo... A Globo deve muito mais do que isso. Vão se ajeitando e tal... Houve até essa história da lei de 30% de capital estrangeiro... Evidentemente é uma falácia, porque o estrangeiro não vai botar 30% numa empresa quebrada, a troco de banana. Até porque a empresa que está quebrada, está quebrada por incompetência. Então, eu vou dar ainda uma grana pro cara que afundou a sua própria empresa? É uma incongruência, uma coisa que não dá pra entender.

“Quando saí da Veja, em fevereiro de 76, e a partir daí precisei inventar os meus empregos, fui estimulado a fazer coisas que não existiam. Então, sempre estive em lugares que não existiam antes da minha chegada. Isso é muito divertido. Eu me diverti muito na profissão.”

P – Olhando para trás um pouquinho – Quatro Rodas, Jornal da Tarde, Veja, IstoÉ –, você não sente que, de certa forma, ajudou a criar o monstro?
MC – Eu??? (risos)

P – Foi você quem criou esses veículos...
MC – Eu tive muita sorte na profissão, porque estava sempre no lugar certo, na hora certa. E isso me favoreceu extremamente. Quando saí da Veja, em fevereiro de 1976, e a partir daí precisei inventar os meus empregos, também isso foi uma sorte, porque fui estimulado a fazer coisas que não existiam. Então, sempre estive em lugares que não existiam antes da minha chegada. Isso é muito divertido. Eu me diverti muito na profissão. Sem contar que o desafio aos patrões sempre foi muito divertido, muito engraçado. É gente que dá pra levar na conversa com extrema facilidade. Muito mais despreparados do que os seus profissionais, do que os seus empregados.
Quanto aos veículos que eu criei, hoje são bem diferentes do que na época. A Quatro Rodas talvez não tenho mudado muito, por ser uma publicação especializada. É uma ótima revista até hoje. O Jornal da Tarde começou bem, mas depois caiu, principalmente por causa da pretensão do Ruy Mesquita, da disputa dele com o Júlio. A característica do Estadão era ser um jornal de caráter mais nacional (embora, a rigor, não o seja), pelo menos de ampla cobertura estadual, e o Jornal da Tarde um jornal paulistano, focando a cidade de São Paulo. Mas aí o Ruy decidiu que o JT também seria de cobertura ampla, competindo na mesma faixa de leitores que o jornal do irmão mais velho. Para ajudar a entornar o caldo, o JT deixou de ser vespertino, porque as máquinas não podiam rodar o jornal de manhã, sob a alegação de “problemas técnicos”. Então, a casa ficou com dois matutinos. O Jornal da Tarde virou o jornal da manhã. (risos) O Jornal da República, embora fosse mais crítico e interpretativo, enquanto estava sendo impresso na gráfica da Folha até que tinha a vantagem de fechar mais tarde e poder dar notícias mais quentes. Ao ser obrigado a mudar para a gráfica do Diário, começou a fechar mais cedo, acho que por volta das 18 horas. Aí ficou difícil. Pior do tudo: faltou sustentação financeira. Infelizmente acabou. Já a IstoÉ perdeu muito da sua combatividade, hoje é muito menos crítica do que a proposta original. A Veja atual não dá nem pra comparar; além de fazer um mau jornalismo, parcial e mal apurado, é empafiosa.

P – A propósito da Veja, você não pensou em ir embora do Brasil por causa daqueles episódios, da censura, Herzog, sua saída da revista?
MC – Naquela época, não. Eu já havia pensado nisso antes, em 1964, quando foi dado o golpe militar. Aliás, toda a mídia implorou por aquele golpe. Mas me convenci de que ser jornalista aqui teria alguma utilidade, alguma serventia para tentar impedir que a história fosse escrita pelos vencedores. Normalmente eles é que a escrevem. Mas, como jornalista, eu teria a chance de deixar para o futuro alguma anotação, alguma coisa que poderia, eventualmente, sobreviver à versão dos vencedores. O jornalista poderia contribuir para a memória do País, eventualmente jogando contra a censura, colocando coisas nas entrelinhas. Bastava pouco para que alguma coisa ficasse.

P – Ao longo de sua trajetória profissional, houve pessoas que o influenciaram?
MC – Meu pai, Gianino, teve uma importância muito grande para mim, acho que a influência dele transcende o jornalismo. Era um homem de visão do mundo, diferente da minha, mas sempre muito honesta, correta, um homem correto, de princípios. E também tinha muito gosto estético. Então, foi uma influência maior do que a meramente jornalística. A bem da verdade, eu não aprendi jornalismo com ninguém, aprendi trabalhando. Tive uma amizade muito grande, muito chegada, com o Cláudio Abramo, que foi um irmão mais velho, onze anos mais velho do que eu. Trabalhei com ele no Jornal da República, éramos muito amigos, mas não posso dizer que me influenciou, até porque também tínhamos visões muito diferentes do mundo. Nos dávamos muito bem, mas era uma coisa que também transcendia o jornalismo. Trabalhei com alguns jornalistas de excelente nível, não gostaria de esquecer alguns: Paulo Patarra, Paulo Henrique Amorim, Tão Gomes Pinto, Nélson Letaif, um monte, agora o Maurício Stycer, o Maurício Dias.
Essa equipe que trabalha comigo é excelente. É gente com a qual dava para trocar bola. O próprio Elio Gaspari, não concordo com certas coisas dele, mas é um ótimo jornalista. Raimundo Pereira é um excelente jornalista. Tem muitos bons jornalistas com os quais trabalhei e com os quais o intercâmbio foi muito forte, muito sensível, muito profundo. Nirlando Beirão... Provavelmente estou esquecendo muita gente... Eu tive ótimas relações com muitos jornalistas e eu acho que sempre foi uma troca muito boa.

P – Você foi um bom chefe?
MC – Acho que sou um chefe excelente. (risos)

P – Dizem que tem um gênio danado...
MC – Não acho que tenho um gênio danado. Eu tenho um gênio excelente, porque sou muito bem humorado. A minha condição natural, orgânica, é do bom humor. Talvez pelo lado crítico... Mas nunca destratei ninguém. Em toda a minha vida mandei embora duas pessoas, nunca despedi ninguém que trabalhasse comigo, só duas pessoas. Eram companhias que não me agradavam. A propósito, Bob Fernandes é um outro jornalista ótimo com quem trabalhei... Mais penso e mais surgem nomes.

P – Você não acha que faz falta termos pensadores analisando a imprensa, discutindo, debatendo e apontando falhas, apontando injustiças, discutindo caminhos?
MC – Sim, claro. Todo trabalho no sentido de levar a sociedade a pensar em si própria é sempre muito propício. Entretanto, neste momento também são raros os livros importantes de reflexão, os livros de análise da conjuntura, dos problemas que afligem o País. Livros que tenham valor, como o que foi atribuído com toda a justiça a obras como Casa Grande & Senzala, Sobrados e Mocambos, Os Donos do Poder, As Raízes do Brasil. Eu acho que não tem. Alguma coisa sai, sim, até bons trabalhos acadêmicos, mas são muito raros e não são livros que têm essa transcendência, essa profundidade que tiveram outras publicações. Sem falar em Euclides da Cunha, coisas desse tipo. Não temos hoje esse tipo de produção.

P – E no jornalismo, você acha que a gente vai voltar a contar boas histórias?
MC – Uma coisa é contar boas histórias, outra é fazer boas análises. São coisas distintas. Essa reportagem sobre o Sarney, por exemplo, é uma ótima história, muito bem contada (Nota da Redação: Carta Capital nº 369, de 23/11/2005). Esse tipo de jornalismo é muito bom. A grande história, belíssima, enriquece o leitor tanto quanto o enriquece a boa análise. Isso é o que se deveria desejar do jornalismo. O problema é essa linha uniforme dos patrões da mídia. Porque eles se juntam diante daquilo que supõem ser o risco comum. Assim, existe hoje um coro contra o governo, compacto. Há nuances, claro, mas é basicamente isso. Todos juntos, exatamente como se deu no golpe de 64. Na verdade, os patrões se odeiam. O senhor Frias odeia o senhor Mesquita, o senhor Mesquita odeia o senhor Marinho. Detestam-se. Cordialissimamente se detestam. No entanto, diante daquilo que supõem ser o inimigo comum, eles se juntam. E não é preciso fazer reuniões de cúpula, eles se juntam automaticamente. Hoje, qual é o negócio deles? É impedir que o Lula se reeleja. Isso empobrece terrivelmente o jornalismo. Mostra, por outro lado – e é inevitável –, que nós vivemos em uma sociedade muito pouco complexa. Na Europa, há jornais que são de esquerda e tem dinheiro de empresários. O inglês Guardian, por exemplo, é um jornal poderosíssimo, fortíssimo, que tem dinheiro de empresários, e é de esquerda – na concepção atual daquilo que deve ser esquerda e daquilo que deveria ser direita. O Republica, de Roma, é um jornal de esquerda, está contra o governo, é um jornal de oposição clara, definida, e tem dinheiro de grandíssimos empresários. São sociedades mais complexas. A nossa sociedade é elementar, é rico e pobre, ponto e acabou. Isso aí, toda a mídia brasileira é para ricos, é dos ricos... E para enganar os pobres. Estão tentando desesperadamente obnubilar, entorpecer os espíritos.

P – Você acha que isso é uma coisa orquestrada? Porque, todos sabemos, os patrões não fazem o fechamento das edições. As equipes retratam isso por osmose? Por exemplo, essa unanimidade em ser contra o Lula...
MC – A reflexão da imprensa nativa, por exemplo, fica por conta de umas coitadinhas... A reflexão está na mão delas e elas querem agradar ao patrão. Uma foi cabo eleitoral do Fernando Henrique e dizia que o Real nunca seria desvalorizado. Reelegeram o Fernando Henrique na base dessa promessa, “o Real não será desvalorizado”. Exatos doze dias depois da posse, ele desvalorizou o Real e o Brasil quebrou. Então, essas são as luzes que refletem dentro da imprensa brasileira. Gente desse tipo, que até tem muito nome, diga-se de passagem, não teria emprego fora do Brasil.

P – Você concorda então com a Marilena Chauí, de que há um complô dessa mídia?
MC – Honestamente, não creio que haja complô, porque acho que esse entendimento se dá automaticamente. Porque tanto para o Mesquita, como para o Frias, como para o Marinho, como para o Civita, como para não sei mais quem – ponham aí quem vocês quiserem –, hoje, o objetivo é este: Lula não deve ser reeleito; então vamos trabalhar ativamente para que isso se dê.

P – Mas eles não ganham com o Lula? O Lula não os incomodou. Ao contrário, a situação está até melhorando agora, com mais publicidade. Para a mídia, qual é a desvantagem de o Lula ser reeleito?
MC – Primeiro, existe o chamado ódio de classe. Lula é um metalúrgico que chegou à Presidência e isso é insuportável. Em segundo lugar, o PT, na opinião deles, é inconfiável. Existem dentro do PT várias facções que advogam a causa de uma política mais agressiva, mais voltada para o social. Então, isso também não agrada. Por outro lado, o próprio Lula, aos olhos deles, é inconfiável. O Palocci começa a tremer na base. Se o Palocci cair, vai ser uma tragédia irreparável para o doutor Olavo.

P – Como o Mino Carta jornalista, crítico, não o diretor de redação, vê a Carta Capital? É a melhor revista semanal?
MC – Não dá para comparar, né? Realmente, é um baile semanal.

P – Como é que vocês lidam com os erros?
MC – Não são muitos, mas denunciamos. Toda edição tem uma errata da anterior.

P – Vocês fazem uma reunião de crítica da edição antes de fazer a pauta da próxima?
MC – Não, não. É uma equipe muito afinada.

P – Quando você transformou a Carta em semanal, tomou o cuidado de fechar pacotes de publicidade para não dar um passo em falso. Como está hoje isso?
MC – Acabou. Temos anunciantes fiéis, sim, mas aquela preocupação inicial, que era ter realmente pacotes já definidos para nos dar um mínimo de respaldo, isso acabou. Temos anunciantes fiéis que renovam todos os anos, têm contratos conosco. Mas é comum, isso acontece em todas as publicações. Agora, o Fernando Henrique não nos dava uma única página de anúncio. Fomos perseguidos pelo governo tucano. Enquanto o governo do PT... Sou amigo pessoal do Lula. Depois de eleito, ele me chamou a Brasília e perguntou como poderia me ajudar. Eu só lhe pedi isonomia. Os nossos preços são, evidentemente, muito mais baixos do que, por exemplo, os da Veja. A Folha, com claro intuito de criar problemas para esta modesta publicação, soltou uma matéria sobre quanto gasta o Governo. Eu verifiquei que a Veja, no ano passado, teve 16 milhões de reais de publicidade e a Carta Capital teve 2 milhões de reais. A Carta Capital teve menos publicidade do que a Exame, que é uma quinzenal específica – falo de dinheiro do governo, né? Petrobras, Banco do Brasil, essas coisas. Eu pedi isonomia e nós tivemos uma certa isonomia. Mas mesmo a Exame, que é uma revista de business, basicamente, e muito ruim, aliás, e que é quinzenal, teve mais publicidade do governo do que a Carta Capital.

“O Fernando Henrique não nos dava uma única página de anúncio. Fomos perseguidos pelo governo tucano. Ao Lula, eu pedi isonomia e nós tivemos uma certa isonomia.”

P – Como você vê o relacionamento do Lula com a imprensa? Ele praticamente não deu entrevistas. Teve, aliás, essa recente que ele deu ao Roda Viva. O que você achou?
MC – Eu não assisti, mas ouvi que se saiu bem. Acho que o Lula deveria dar uma grande entrevista à imprensa ao cabo do ano. Não creio que o presidente da República deva dar entrevistas exclusivas, ele deve dar coletivas, convocar em Palácio uma entrevista coletiva, vai quem quer, graúdos e miúdos, fazem as perguntas que quiserem... Ele diz antes: tenho duas horas para vocês. Perguntem o que quiserem. Eu vou fazer o balanço do ano e desta questão aqui. E dá uma entrevista coletiva firme, forte. Parece que ele se deixa acuar, eu acho que o comportamento do governo é muito, muito ruim, muito inábil. Parece que na entrevista do Roda Viva – que, de certa forma, era uma entrevista para vários; isto está certo, mas deveria ser ainda maior o escopo –, ele se saiu bem. Mas acho que o governo tem uma atitude muito fraca, faltou ali atuar distribuindo porradas.

P – Qual a razão da saída do Ricardo Kotscho, na sua opinião?
MC – Não sei... Mas ele é outro jornalista que trabalhou comigo e que é muito bom também. Não sei mesmo... Estive com o Kotscho na festa do Comunique-se, mas depois que ele saiu e não conversamos.

P – Você vota?
MC – Claro, sim.

P – Tem alguma preferência partidária?
MC – Não exatamente partidária, mas, de muito tempo para cá, tenho votado por candidatos do PT. Lula sempre foi meu candidato, desde 1989.

P – E parlamentares?
MC – Eu votava em Ulysses Guimarães, que não era PT, era MDB, depois PMDB; sempre votava nele.

P – E tem algum político atual, tirando o Lula?
MC – Deve ter, mas a minha esclerose galopante me impede de... (risos) Provavelmente sim, mas me escapa neste momento um nome assim... volumoso!

P – Nos últimos anos, a crise chegava à imprensa, de um modo geral, através de instrumentos, como CPIs. Ouvimos o próprio Ricardo Noblat comentar isso numa palestra, que a imprensa era muito pautada pelas CPIs...
MC – Outro muito bom jornalista. Também trabalhou comigo...

P – Hoje, ao contrário, a imprensa tem pautado a CPI. Sai na imprensa e aí a CPI dá seqüência. Desse ponto de vista, mesmo com o conluio que você diz existir, a imprensa tem cumprido o seu papel de vigilância, ainda que de uma forma deformada?
MC – Para citar um caso recente: o depoimento dessa Carla Cicco. Cadê a cobertura da imprensa? Daniel Dantas é o centro da questão. Por que há essa proteção ao Daniel Dantas? Tem gato na tuba aí...

P – Não sei se foi o Gaspari que falou que o Daniel Dantas estava no meio dessa questão...
MC – Foi a Carta Capital. O Gaspari, nesses pontos, é bem menos contundente hoje em dia. Quem diz isso há seis anos é a Carta Capital. Já demos dez capas sobre o Daniel Dantas. Ele me processou e perdeu. No Cível, ele perdeu; agora corre no Penal.

P – Quantos processos já respondeu na vida?
MC – Não sei. Mas sempre ganhei, nunca perdi.

P – Algum marcante?
MC – Nada. Esses do Dantas são bons, porque ganhar do Dantas é muito bom.

P – Vamos passar para um pingue-pongue? Um pintor.
MC – Caravaggio.

P – Uma tela.
MC – Caravaggio, A Chamada de São Mateus.

P – Um escritor.
MC – Shakespeare.

P – Um livro.
MC – Júlio Cesar.

P – Um político? Não necessariamente do Brasil ou do nosso tempo.
MC – Um político entendido como pensador político? Antonio Gramsci.

P – Uma pessoa inesquecível.
MC – Meu pai, Gianino.

P – Uma crença.
MC – A receita deve ser – não é minha, é de Gramsci: “Pessimista na inteligência, otimista na ação”.

P – Um sonho.
MC – Os sonhos são tais e tantos que não dá para reduzir a um sonho só...

P – Uma reportagem inesquecível.
MC – A morte de Valentino, contada por John dos Passos.

P – Um momento fotográfico.
MC – As crianças que correm fugindo de Mi Lai.

P – Um medo.
MC – (longo silêncio, seguido de risos) De levar mais um tapa da minha mãe, Dona Clara, o enésimo. A enésima surra materna.

P – Um ídolo.
MC – (silêncio) Não tenho.

P – Um vício.
MC – Também não. Até fumei, mas... Não, nada.

P – Uma virtude.
MC – Nenhuma. (risos)

P – Um ensinamento.
MC – Não basta uma vida, diziam os gregos.

P – Um jornalista.
MC – Meu pai e também Cláudio Abramo

Confira aqui outros pensamentos e opiniões de Mino Carta, extraídos da entrevista concedida a Protagonistas da Imprensa Brasileira e que não integraram a versão impressa/pdf da publicação.

Povos do mundo e elite brasileira
“Eu não acredito na superioridade de um povo em relação a outros. Os povos são todos iguais, o homem é sempre igual, depende das circunstâncias, da situação histórica. O problema é que nós vivemos na mão de uma elite feroz, má, ignorante, prepotente, cafajeste, mal-educada, que jogou fora esse patrimônio extraordinário que é um país raro – pelo menos raro, para dizer pouco. Muito espaço para pouca gente, 6.500 km de costa, riquezas no subsolo, terra fértil... O que se quer mais? E por que estamos tão mal? Sempre um destino de colônia, um destino de sabujos dos Estados Unidos, depois de ter sido da Inglaterra... Um país de predadores nefastos, que só querem encher os bolsos e não pensam no dia de amanhã. Essa é a nossa elite, uma elite grotesca.”
Brasil, de mal a pior!
“O País está indo de mal a pior, recua todos os anos, inexoravelmente, do ponto de vista econômico. O nosso ensino está cada vez pior. Por que deveríamos ter um jornalismo melhor? Ele é um espelho do País. O nosso jornalismo é lamentável. Você fala coisas e as pessoas normais não entendem o que você está dizendo. Os jornais estão cada vez pior escritos. É uma coisa assustadora como se escreve mal no Brasil. E as pessoas não sabem escrever porque também não sabem falar.”

New York Times e imprensa americana
“O New York Times é um grande jornal. Mas os Estados Unidos vão mal também. Eles elegem Bush, fazem uma guerra como essa do Iraque. Acho os Estados Unidos um desastre. Um pouco melhores do que o Brasil, evidentemente, porque, ainda assim, são o centro do império. E têm uma imprensa de grandes tradições. A imprensa e a mídia americanas continuam sendo de excelente nível. Mas caíram muito. Fiz dois estágios nos Estados Unidos, na Time-Life, um em 1964 e outro em 1968, às vésperas do lançamento de Veja, e também na Newsweek. Era uma outra imprensa, uma outra mídia, muito mais qualificada, muito melhor de todos os pontos de vista. Mas o país também era muito melhor. Acho que os Estados Unidos estão numa draga.”

Guerras e conquistas
“No caso da Índia, há uma tradição antiga, ela sempre teve uma ligação... A China é um caso especial, porque, apesar de tudo, ainda é uma ditadura. Mas a Índia é um país que fez uma guerra de verdade, lá se morre... A guerra da independência dos Estados Unidos foi uma guerra. A Venezuela teve Bolivar, a Argentina teve San Martin. Já nós tivemos um senhor que estava com prisão de ventre ou o oposto e parou numa altura do Ipiranga e disse “Independência ou Morte!”. Provavelmente estava irritado porque não achou sequer uma folha de bananeira para cuidar do serviço. Nunca houve um combate sério neste País. Temos um povo escravo até hoje.

Escravidão
“A escravidão é uma marca terrível e o nosso povo carrega no lombo a marca do chicote. A escravidão é um fato indiscutível e gravíssimo. Mas há países que não tiveram escravidão. A Argentina não teve escravidão. Estou falando dos países da América Latina. Os países europeus certamente tiveram formas de escravidão, mas há muito tempo, são coisas que foram superadas – o próprio tempo se incumbiu de lavar certos pecados. Aqui, não, é tudo ainda muito recente. Acho que existem ainda pedaços do Brasil na escravidão, é um fato.”

The Economist
“The Economist é uma revista excepcional para um público especial. Parece que os leitores da The Economist choram todos os dias pensando que a Veja é muito maior do que eles, né? (risos) Parece que eles não dormem. Alguns tiveram crises nervosas, estão internados em clínicas variadas da Inglaterra. É que a The Economist tem uma tiragem total de 700 mil exemplares. Chega ao Brasil um certo reparte. Mas, de qualquer maneira, desses 700 mil, 200 mil ficam na Inglaterra. Quer dizer, é um parâmetro desse ponto de vista. Se a The Economist, na Inglaterra, tem um reparte de 200 mil exemplares, Carta Capital, no topo, talvez pudesse ter 100 ou 120 mil exemplares. Porque penso que na Inglaterra os índices de leitura sejam mais dilatados do que os do Brasil. Mas a The Economist não é uma revista da minha preferência. Acho que é muito bem escrita, muito bem feita, mas não é a da minha predileção. Na imprensa inglesa prefiro o The Guardian, por exemplo, ou o The Independent. São órgãos mais próximos da minha idéia. Mas reconheço que se trata de uma revista excelente, certamente a mais importante do mundo. Na 2ª feira ela está lá na mesa do Chirac, do Bush, do grande empresário, do grande banqueiro. Até o doutor Olavo lê a Economist... (risos)”

Políticos e Política
“Não tenho um grande relacionamento com políticos. Mas ligo e sou atendido, quando quero saber alguma coisa. Eu, pessoalmente, sou amigo do Lula há 28 anos, por exemplo. Fernando Henrique, conheço há 45. Agora, acho Fernando Henrique um oportunista, um arrivista, um sujeito que foi de esquerda porque era elegante ser de esquerda, porque estava na moda ser de esquerda. Sem contar que ele é um substituto perfeito para o Dormonid. O discurso do Fernando Henrique é magnífico para fazer dormir um insone como eu... (risos) O Palocci me parece ser um excelente aluno do Fernando Henrique. Eu estava pensando em pegar alguns trechos do depoimento do Palocci, gravar e ouvir quando me der insônia. (risos)”

“Não tenho nenhum interesse pela política parlamentar. Mas eu acho que a política é a condição do homem, é a moldura de tudo. Nós somos políticos o tempo inteiro.”

Lula sabia de tudo?
“Ah, não, eu não me abalo a dizer certas coisas... Alguma coisa provavelmente sabia, alguma coisa ele devia saber. Mas o que ele sabia? O que foi provado? Foi provado o caixa 2. Qualquer um sabe, todo mundo sabe que se usa caixa 2. Agora, o mensalão não foi provado. Cadê as provas? Creio que ele, de alguma maneira, não se deu conta de certas coisas, até porque fica distante de certos problemas, por desinteresse. Ele deve confiar muito nas pessoas. Sim, é necessário confiar, mas não acho que ele confia nas pessoas certas. Eu me considero mais rigoroso nas minhas escolhas, de quem fica perto de mim. Ele não é tão rigoroso e é um cara que pode ser levado na conversa. Já a história do Marcos Valério é uma claríssima. Chegaram lá e perguntaram: “Quem é o cara que opera? Ah, é aquele senhor careca. Ele fez um trabalho magnífico para os tucanos. É o profissional da operação. Ah, então vamos pegar o cara. Continua com ele. Ele é o expert, está ótimo”. É como se você, que tem uma empresa, decidir, digamos, mudar a agência de publicidade. Você pergunta: “Quem é bom aí? Ah, tem o Nizan Guanaes, tem o Washington Olivetto, tem não sei quem... Quem é o melhor? É esse. Então, pega ele. Mas ele trabalhou para... Trabalhou? Não me importo, agora trabalha para mim”. É a mesma coisa, foi isso. É o operador. Isso é lamentável, mas não foi ele, certamente, quem escolheu o Marcos Valério.

PT vs PSDB

“Eu acho que aí vem à baila o nome do Golbery. Ele fez a reforma partidária com um claríssimo propósito – isso foi no segundo semestre de 1979: estilhaçar a oposição emedebista, que tinha virado algo concreto, sob o comando do Ulysses Guimarães. E, aparentemente, ele conseguiu o seu intento de forma brilhante, porque surgiram naquele momento o PMDB, o PT, o PP do Tancredo Neves, o PDT do Brizolla, de quem o mesmo Golbery tinha roubado a sigla do PTB, entregando-a para a Yvete Vargas. Mas o PT tinha já, em última análise, uma fisionomia própria, muito distinta. Porque é claro que, quando se tratava de formar uma oposição – por mais complicada e difícil que fosse a situação naquele momento –, todos se juntavam contra o regime. Na hora em que você diz “Ah!, vou fazer uma reforma partidária porque em 1982 teremos eleições diretas para os governos dos estados”, neste momento, evidentemente, cada um toma a sua posição ideológica coerente, deixa de haver essa frente comum contra o regime militar e cada um começa a defender o seu caminho, as suas idéias. Aí surgiu o PT. O PSDB é algo que se forma em função das ambições tucanas, muito mais tarde, em 1987, a partir do PMDB. Não é do PT. O PT já estava numa outra. Essa turma – os herdeiros da UDN paulista, os impolutos senhores donos da moral, donos da correção, da ética –, esses saem do PMDB. Não acho que tenham a mesma ideologia. Ao contrário, é muito distinta.”.

Texto e imagem reproduzidos do site: jornalistasecia.com.br

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O mestre perguntador, morre desencantado com o jornalismo

Foto reproduzida do YouTube, postada por Meio Impresso, para ilustrar artigo.

Publicado originalmente no site Congresso em Foco, em 25 de agosto de 2016.

Geneton, o mestre perguntador, morre desencantado com o jornalismo.

Jornalista lamenta a morte do colega Geneton Moraes Neto. “Exemplo de sucesso e referência para todos os repórteres que tentam ser fiéis ao compromisso irrevogável de uma imprensa dedicada à verdade, à memória, à história e ao dever de consolar os aflitos e afligir os consolados”

Luiz Cláudio Cunha *

O jornalismo brasileiro ficou mais obtuso, medíocre, raso, frio, casmurro e sem respostas nesta segunda-feira, 22 do agosto sempre aziago. Perdemos o Geneton.

Geneton Moraes Neto morreu no Rio de Janeiro aos 60 anos, vencido pelas complicações de um aneurisma na aorta sofrido três meses antes. Na autoapresentação de seu blog, criado em 2004, ele já avisava: “Nasci numa sexta-feira 13, num beco sem saída, numa cidade pobre da América do Sul: Recife. Tinha tudo para fracassar. Fracassei”.

Bela mentira. Em quatro décadas de jornalismo, o Geneton do beco e da sexta-feira 13 tornou-se, para sorte de todos nós, um exemplo de sucesso e uma referência para todos os repórteres que tentam ser fiéis ao compromisso irrevogável de uma imprensa dedicada à verdade, à memória, à história e ao dever de consolar os aflitos e afligir os consolados.

Ele começou como repórter em sua terra, no Diário de Pernambuco e na sucursal local de O Estado de S.Paulo, nos duros anos do Governo Geisel, em plena ditadura. Foi estudar no exterior. Em Paris, trabalhou como camareiro do Hotel Mônaco e motorista de uma família rica enquanto estudava Cinema na Sorbonne.

Voltou ao jornalismo, e ao Brasil, para trabalhar no Grupo Globo a partir de 1985. Ali, o repórter que se dizia fracassado foi chefe e mestre nos principais postos de jornalismo da casa: editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional, correspondente em Londres da GloboNews e do jornal O Globo, repórter e editor-chefe do Fantástico.

Nenhuma mesa poderosa da burocracia da redação, porém, deslumbrou o ex-fracassado do beco: “Não troco por nada o exercício da reportagem — a única função realmente importante no jornalismo”, definia Geneton no seu blog. E foi na função seminal de repórter, não como executivo de redação, que Geneton imprimiu sua marca indelével na imprensa brasileira. As provas estão guardadas para sempre no seu blog, que devia ser tombado como patrimônio cultural e leitura obrigatória para estudantes, repórteres, jornalistas e todos aqueles que respeitam a inteligência e o conhecimento. Ali, Geneton passeia sua intimidade, seu talento e seu ofício de repórter exemplar e humilde diante da notícia e de gente que, como ele, fez História. Presidentes e ex-governantes, generais e guerrilheiros, escritores e cineastas, atletas e poetas, astronautas e políticos, cantores e compositores, jornalistas e repórteres, grandes repórteres como ele, passaram pelo crivo de sua inteligência e argúcia.

Os bastardos

As duas sobreviventes do Titanic, o copiloto da bomba de Hiroshima, o assassino de Martin Luther King, o produtor dos Beatles, o promotor britânico do tribunal de Nuremberg, o agente secreto que tentou matar Hitler, os três astronautas que pisaram na Lula, o confessor de Bin Laden nas montanhas de Bora-Bora, o professor do líder dos terroristas do 11 de Setembro, o homem que encarou o ‘Setembro Negro’ nas Olimpíadas de Munique, o filho do carrasco nazista de Auschwitz que ataca o próprio pai, o guerrilheiro brasileiro que recrutou a mãe para a luta armada, o repórter de Watergate que derrubou o presidente da Casa Branca, o relato dos 11 jogadores brasileiros da derrota na final da Copa de 1950 num Maracanã estufado com 10% da população do Rio de Janeiro na época, mais de 200 mil torcedores.

Todos fazem parte deste universo mágico que Geneton esquadrinhou e trouxe para perto de nós, para nos recontar, com detalhes inéditos, a saga da espécie humana, nos seus bons e maus momentos. “Que se faça a louvação da reportagem. O papel de todo repórter é produzir informação a curto prazo. E memória, a longo prazo – de preferência, nas páginas de um livro, hoje transformado em espaço nobre a reportagem no Brasil”, escreveu Geneton na orelha do penúltimo de seus onze livros, Dossiê História (2007).

Ali, Geneton se define modestamente como um “pequeno tarefeiro da memória porque, em última instância, a memória é a grande matéria-prima do jornalismo”. Nessa tarefa, ele seguia com devoção o mandamento de um velho jornalista do inglês The Times, que ensinava:  Toda vez que estiver entrevistando alguém, anônimo ou famoso, rico ou pobre, o repórter deve sempre fazer a si mesmo, intimamente, a seguinte pergunta:

‘Por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?’

O blog de Geneton se define como ‘jornal de um repórter’ e tem até uma padroeira, uma tal de ‘Nossa Senhora do Perpétuo Espanto’. Ele explicava: Para que possam contribuir com esse ‘mundo real’, os jornalistas têm que ter uma atitude de permanente espanto. Precisam ser ‘levantadores’, não ‘derrubadores’ de matéria.

É aí que entra em cena, gloriosamente, a Nossa Senhora do Perpétuo Espanto. Quando criou esta ‘entidade’, Kurt Vonnegut [1922-2007, escritor, EUA] não estava se referindo ao jornalismo, mas essa ‘santa’ deveria ser proclamada padroeira plenipotenciária da nossa profissão.

O jornalista precisa manter, em algum ponto de suas florestas interiores, aquela chama, aquela faísca, aquele espanto que se vê no brilho dos olhos de um estagiário – ou de uma criança.

Quando você se guia pelo entusiasmo das pessoas que estão fora da redação, o resultado do trabalho é melhor do que se você se guiasse pelo tédio dos que estão dentro.

Geneton ensinava que o mundo real é mais interessante do que o mundo dos jornalistas: “Cansei de ver, ouvir e encontrar leitores e telespectadores mais interessados pelos fatos do que jornalistas. Não estou falando de algo abstrato, mas de uma situação real, palpável, comprovável no dia a dia dos jornais. Cansei de ver em redações um clima de tédio total entre os jornalistas. Se você atravessar a rua, for à padaria e comentar que entrevistou uma velhinha que foi passageira do Titanic, provavelmente os ‘ouvintes’ farão perguntas e se interessarão pelo assunto, enquanto muitos jornalistas dirão, com os olhos semicerrados de tédio: ‘Ah, mas já faz 100 anos que o Titanic afundou…’.”

Esse diagnóstico levou Geneton à descoberta de uma terrível doença que ataca as principais redações brasileiras: a SFG, a ‘Síndrome da Frigidez Editorial’, que ele batizou e, com ar divertido, ameaçava registrar na Organização Mundial da Saúde. Definição da síndrome, segundo Geneton: “É a doença do jornalista que, depois de anos de profissão, perde a capacidade de se espantar diante da realidade. Se perde esse fogo, o jornalista deve mudar de profissão”. E jornalista que não se espanta, é claro, nem pergunta mais.

O crédito do general

Perguntar é o que Geneton sabia fazer como ninguém na imprensa brasileira. Como já se disse [1], “o jornalismo é a atividade humana que depende essencialmente da pergunta, não da resposta. O bom jornalismo se faz e se constrói com boas perguntas”.

Inimigo juramentado do terno e gravata, fiel ao seu negro blusão de gola rolê que fazia contraste com o branco da barba branca e dos cabelos desgrenhados e cada vez mais ralos no alto da cabeça, Geneton não se intimidava diante das luzes e câmeras da GloboNews, muito menos diante de seus entrevistados. Preocupado menos com a forma, o penteado ou o traje, ele não descuidava nunca do conteúdo, a partir da pauta que ele mesmo escrevinhava, em letras grandes, em folhas de papel almaço que brandia e consultava sem constrangimentos em suas entrevistas. Com sua fala mansa e firme, no doce sotaque recifense que preservou até o fim, Geneton encarava as respostas enganosas com mais perguntas — rápidas, incisivas, cirúrgicas —, repelindo as mentiras com outras perguntas que conduziam à verdade.

Quando o notório Paulo Maluf negou ser sua a assinatura de uma conta no exterior, mesmo diante do documento exibido pelo entrevistador, Geneton disparou:

— O sr. nega então que este Paulo Maluf, aqui, seja o senhor?

— Nego.

— Mesmo com a assinatura de Paulo Maluf?

— Nego.

— Então, existe outro Paulo Maluf?

O Maluf à sua frente ficou em silêncio.

Como todo bom repórter, Geneton era teimoso. Tentou uma, duas, três vezes, até convencer o general Leônidas Pires Gonçalves (1921-2015), ministro do Exército do Governo Sarney, a lhe dar uma histórica entrevista em 2010. Nos créditos da telinha, surpreendentemente, o general não aparece identificado como o primeiro ministro militar da democracia, mas como o chefe da repressão da finada ditadura, a quem Leônidas serviu com espartana e rígida fidelidade. Por isso, na entrevista da GloboNews, o general é creditado apenas como ‘chefe do DOI-CODI, 1974-1977’.

O general falou com uma fluência inédita e uma sinceridade desconcertante, levantando temas que beiravam a fantasia, a leviandade e a arrogância. Ironizou as denúncias (“Hoje todo mundo diz que foi torturado para receber a bolsa-ditadura”) e duvidou até do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob torturas no DOI-CODI de São Paulo, em 1975: “Eu não tenho convicção de que Herzog tenha sido morto… Um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa. Até se mata”.

Leônidas desafiou qualquer um a dizer que foi torturado no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, que ele comandou como chefe do Estado-Maior durante quase três anos, na fase mais turbulenta do governo Geisel. ‘Não houve tortura na minha área’, garantiu Leônidas.

Devia ser uma bolha milagrosa, porque ali mesmo no I Exército, comandado pelo general Sylvio Frota entre julho de 1972 e março de 1974, o DOI-CODI carioca era um centro de morte, conforme apurou O Globo. Naquele espaço de 21 meses, contou o jornal, morreram 29 presos nas masmorras da afamada rua Barão de Mesquita, onde funcionava o centro de torturas do Exército, comandado pelo notório major Adyr Fiúza de Castro, um dos radicais mais temidos da ditadura. Bastou chegar ali e assumir o DOI-CODI carioca, fantasiava o general Leônidas, e a paz dos anjos se instalou.

Sem arrogância, Geneton enfrentou o general Leônidas com perguntas precisas, enxutas, minimalistas, que iluminaram a história e conseguiram arrancar o melhor (e o pior) do chefe da repressão política que se orgulhava de seu trabalho na ditadura. Preocupado com a edição do programa na TV, Leônidas se apressou em ensinar jornalismo a Geneton:

— Que minhas ideias não sejam suprimidas na edição. Se houver um corte, você me deixa mal — avisou o general, esquecido de que o regime de força que ele defendeu se esmerava em cortes sistemáticos pela censura burra que suprimia ideias e fatos que sempre deixam mal as ditaduras. Geneton não cortou, e ainda assim o general Leônidas ficou muito mal pelas ideias que exprimiu, livremente.

Sempre educado, mas incorrigivelmente firme, Geneton questionou a exótica versão do general de que líderes do regime deposto – como Arraes, Brizola, Jango, Prestes – saíram do Brasil, a partir de 1964, ‘porque quiseram’. Leônidas mirou no ex-governador Miguel Arraes, conterrâneo de Geneton, pregando:

– Ele [Arraes] podia ter ficado em casa…

– Deposto – emendou Geneton.

– E qual é o problema? – admirou-se o general.

– Todo – encerrou Geneton, com a sintética sabedoria que o general, já nos seus 90 anos, ainda não apreendera. – Não havia condições de exercer a política no Brasil, naquela época, general.

O ex-chefe do DOI-CODI desdenhou toda uma fase de arbítrio e violência, dizendo que o país não teve exilados pelo golpe de 1964, mas apenas ‘fugitivos’.

– Eles que ficassem aqui e enfrentassem a justiça – pregou Leônidas.

– General, num regime de exceção, a justiça não é confiável – replicou o repórter, com a altivez e a dignidade devidas.

Eu destaquei esse luminoso desempenho de Geneton x Leônidas num texto — A arte de perguntar—, publicado pelo site Observatório da Imprensa em 7 de abril de 2010, quatro dias após a exibição do programa pela GloboNews, num sábado. Geneton, o mestre e amigo a quem eu tratava nos e-mails pelo carinhoso título de Master Asker (Mestre Perguntador), me agradeceu pelo texto com o bom humor de sempre:

Olá. Com um cabo eleitoral como você aí, considero-me eleito para o Comitê Central do PPB, Partido dos Perguntadores do Brasil. Obrigado!

No dia seguinte, ainda mais feliz, Geneton me repassou uma mensagem do diretor da GloboNews, César Seabra, que redistribuiu pelo correio interno o meu texto do Observatório a toda a equipe da TV, com a seguinte determinação:

Caros,

o texto do link abaixo faz elogios merecidíssimos ao nosso Geneton. Mas também nos faz um alerta precioso, sobre como conduzir uma entrevista. É leitura obrigatória para todos – apresentadores, repórteres, editores, produtores, chefes… Aproveitem.

Beijo e bom dia, César

Bolt da garotada

O incansável Geneton não desistiu do general, que ficou satisfeito com o que viu no ar, com todas as suas ideias bizarras respeitadas, como cabe numa democracia. “Devo ter recebido uns 400 telefonemas…”, disse o eufórico Leônidas a Geneton, num encontro casual num final de manhã de junho de 2014 num shopping do Leblon. Em março de 2015 Geneton pensava num lance mais ousado. Colocar o general da repressão no estúdio diante de um guerrilheiro da luta armada. O general piscou. Perguntou quem seria seu oponente. Geneton pensava no ex-guerrilheiro Cid Benjamin, um dos integrantes do grupo que sequestrou o embaixador americano Burke Elbrick em 1969. “Vou dizer uma coisa que você não sabe: o Cid foi prisioneiro meu”. O encontro épico sonhado por Geneton nunca aconteceu: Leônidas morreu três meses depois, aos 94 anos, exatamente um ano depois do encontro dos dois no shopping.

Geneton esmerou-se na arte das perguntas por que esta é a missão central do repórter: “Não faça jornalismo para jornalista. Faça para o público”, repetia ele ao público, embevecido como eu, nas duas vezes em que nos encontramos, em 2011 e 2014, no tradicional SET Universitário promovido pela Famecos (Comunicação Social) da PUC de Porto Alegre. É o mais longevo (29 anos em 2016) evento de comunicação do sul do país, atraindo gente da Argentina, Uruguai e outros países. Geneton era o Usain Bolt da garotada, que ele conquistava com a rapidez e o brilho de um raio.

Mesmo diante da crise econômica que vive a indústria da comunicação e da crise existencial que abate os jornalistas atropelados pelo desafio da tecnologia, Geneton nunca abdicou de seus princípios. Fidelidade absoluta à reportagem e ao seu ídolo maior, Joel Silveira (1918-2007), “o maior repórter brasileiro”, um sergipano autodidata que Geneton frequentava todo dia, até a sua morte, com a reverência de um fã.

Joel foi correspondente de guerra na campanha da FEB na II Guerra Mundial, escalado para cobrir o conflito em 1944 pelo dono dos Diários Associados. Assis Chateaubriand lhe deu a ordem final:

— O senhor vai para a guerra! E vou lhe pedir um favor, senhor Silveira: não me morra! Repórter não é para morrer, repórter é para mandar notícia!

Joel embarcou e voltou. Mas, contrariando as ordens de Chateaubriand, morreu um pouco.

— Fui para a Itália com 27 anos, passei dez meses e voltei com 40 anos. A guerra me tirou 13 anos — confessou o ídolo Joel ao fã Geneton, que a partir desses 20 anos de convivência e confidências, juntando fitas K7 e imagens amadoras, acabaria produzindo um documentário fundamental de 90 minutos sobre o maior repórter brasileiro: Garrafas ao mar — A víbora manda lembranças, exibido pela GloboNews em 2013.

Geneton se divertia contando as relações de seu ídolo com os magnatas da mídia. De Chateaubriand, Joel ganhou o apelido de ‘víbora’. De Adolpho Bloch, dono da revista Manchete, onde Joel publicou suas últimas reportagens, ele ganhou um bilhete. Bloch aproveitou uma viagem de seu repórter a Jerusalém e lhe pediu que colocasse o bilhete, como manda a tradição judaica, numa das frestas do Muro das Lamentações, acompanhado de um pedido. Joel cumpriu a pauta do patrão, que lhe perguntou na volta:

— E aí, Joel, fez o pedido?

— Fiz, Adolpho. Pedi para você me dar um aumento de salário…

Porta estandarte

Um dos mantras preferidos do sergipano Joel Silveira — “Jornalismo é ver a banda passar, não é fazer parte da banda” — reproduz bem a visão que seu fã pernambucano tinha de boa parte da mídia atual, em que o jornalismo cede espaço ao partidarismo, a razão é acuada pela paixão, a isenção é atropelada pela facção. Geneton também deplorava o engajamento até de jornalistas experientes em uma ou em outra banda partidária, no calor de uma luta político-eleitoral cada vez mais acesa que rebaixou parcela da imprensa ao jogo abrutalhado de um Fla-Flu de caneladas e mútuo xingamento, tão estridente que nem dava para ouvir a banda passar.

Geneton, com a serenidade que nunca lhe permitiu desfilar nessas bandas, definia:

— Fazer jornalismo é não praticar nunca, jamais, sob hipótese alguma, a patrulha ideológica.

Geneton via em Joel o seu ideal cada vez mais romântico do repórter que sobreviveu à ‘ditadura da objetividade’, imposta para combater pragas como subliteratura, beletrismo e academicismo, e sucumbiu à maldição dos tempos atuais, com textos áridos, chatos, anêmicos, soporíferos, iguais. “Lástima, lástima, lástima”, lamentava Geneton.

Geneton sonhava com alguém pichando os muros da cidade, proclamando: “Chega de objetividade! As notícias eu já vi na internet e na TV! Quero vivacidade, imaginação, arrebatamento, ousadia!”. No seu devaneio, Geneton achava que Joel poderia ser o porta-estandarte do resgate desse tipo de jornalismo, segundo ele exilado para a Sibéria.

— A luta por um jornalismo mais vívido, mais atraente, mais iluminado faz parte da luta por um Brasil menos medíocre. Por que não? — perguntava-se Geneton, mais uma vez.

Para sustentar sua teoria, ele usava a prática inigualável de Joel, dando como exemplo este texto em que o velho sergipano descrevia um menino morto no Bogotazo, uma revolta popular na Colômbia de 1948 que se seguiu ao assassinato de um candidato liberal da oposição, Jorge Gaitán, abatido na rua com três tiros. Os protestos, desordens e a repressão desatada em Bogotá, num único dia, deixaram um saldo de 500 mortos só na capital. Trecho do texto de Joel:

Estive no Cemitério Central de Bogotá, em afazer de repórter, para ter uma ideia aproximada do saldo de mortos deixado pela explosão popular. Nunca, em toda minha vida, nem mesmo nos meses de guerra, estive diante de mortos tão mortos. Somente aquele menino – não mais de oito anos – morrera cândido, de olhos abertos, um começo de sorriso nos lábios. Os olhos vazios fixavam o céu de chumbo. As mãos de unhas sujas e compridas pendiam sobre a laje dura – como os remos inertes de um pequeno barco. Um funcionário qualquer se aproximou, olhou por alguns segundos o menino morto, procurou sem achar alguma coisa que ele deveria trazer nos bolsos. Tentou em seguida fechar com os dedos os olhos abertos, mas não conseguiu. Abertos e limpos, os olhos do menino morto pareciam maravilhados com o que somente eles viam, com o que queriam ver para sempre.

Geneton fez a pergunta, que insinuava a resposta:

— Os jornais de hoje publicariam textos assim? O grande poeta Ferreira Gullar fez uma vez, num verso, uma pergunta que a gente bem que poderia repetir, contra o cinzento da mesmice: ‘Onde escondeste o verde clarão dos dias?’. Ah, Jornalismo: onde escondeste o clarão?

Geneton, sempre amigo e solidário, acompanhou solitário o final de vida dos últimos 20 anos da víbora da reportagem. Ninguém mais frequentava aquele apartamento deserto no sexto andar de um prédio da rua Francisco Sá, em Copacabana, habitado apenas por livros, lembranças, história e Joel Silveira.

— Estou morrendo, Geneton, estou morrendo! — suspirava o velho repórter, que já não saía de casa e já não tinha amigos. Só Geneton. Joel desprezou o tratamento de um câncer na próstata para morrer em casa em 2007, na amarga mansidão de seus 88 anos. Na companhia fiel de seu último amigo.

Um dissidente

O fim melancólico de Joel Silveira, que Geneton definia como precursor do New Journalism que fez a fama de profissionais festejados como Gay Talese e Truman Capote, explica um pouco a visão cada vez mais pessimista que Geneton tinha do próprio jornalismo na atualidade.

Geneton criava, produzia, executava, editava e apresentava suas próprias reportagens naGloboNews, com a doída convicção de que, como Joel, ele se tornava uma avis rara do jornalismo, um exemplar de dinossauro condenado à extinção imposta pelo cometa brilhante da inevitável modernidade tecnológica. Geneton parecia, agora, uma víbora que já não confiava nem na peçonha de suas perguntas, por mais venenosas que fossem.

Aqui e ali, sem alarde, Geneton deixava fluir aos poucos sua melancolia, fazia vazar sua desilusão.

Na véspera do réveillon de 2010, ele publicou em seu blog uma nota sem destaque, quase escondida, sugerindo um ‘Teste para Seleção de Jornalistas’. Era uma azeda reflexão sobre o jornalismo:

“Uma sugestão aos responsáveis pelos departamentos de pessoal das empresas jornalísticas: depois de pesquisas que se arrastaram por meses, os especialistas conseguiram montar um teste infalível para seleção de candidatos a vagas nas redações. O candidato ao emprego deve ficar imóvel durante três minutos, diante de um fiscal da empresa. Se, ao final deste prazo, o candidato não latir nem relinchar deve ser sumariamente eliminado, porque não serve para a profissão jornalística. Se, no entanto, o candidato emitir latidos e relinchos terá provado que é jornalista legítimo. Deve ser imediatamente contratado. Porque mostrou estar preparado para ingressar nas redações brasileiras e produzir os jornais, revistas e programas de TV mais chatos do mundo”.

Cinco anos depois, em 24 de agosto de 2015, inspirado numa definição de Winston Churchill para a União Soviética de Stálin (“É uma charada envolvida num mistério dentro de um enigma”), Geneton voltou a filosofar com amargura em seu blog, numa nota impiedosa sob o título ‘Entrevista de Emprego’, que seria cômica, se não fosse trágica:

Se eu fosse enfrentar hoje uma entrevista de emprego e se me pedissem para dizer em trinta segundos o que penso do jornalismo, eu diria, com toda sinceridade:

“Depois de décadas na estrada, tenho a nítida, nitidíssima sensação de que, no fim das contas, como escolha profissional, o jornalismo foi um equívoco envolvido num engano dentro de um grande erro. Mas agora é tarde para voltar atrás. Bola pra frente, então! Faz de conta que é a melhor profissão do mundo! E é – para os que se descobrem tecnicamente incapazes de fazer alguma coisa que seja de fato útil ao avanço da humanidade! Nem preciso dizer que eu seria imediatamente dispensado pelo burocrata do Departamento de Recursos Humanos encarregado de selecionar os candidatos. Eu ouviria o aviso de dispensa sumária, me levantaria, cumprimentaria o dispensador e diria: ‘Parabéns! Você nunca tomou uma decisão tão acertada”‘.

Cinco anos antes, na mesma mensagem de 8 de abril de 2010 em que me agradecia pela louvação à sua ‘arte de perguntar’, o e-mail privado de Geneton traía sua desilusão já na linha seguinte, com uma inesperada autodefinição em tom de confissão:

“Pode parecer pretensão, mas acho que realmente o jornalismo se mediocrizou. O exibicionismo toma o lugar da substância, especialmente na TV. Modestamente, considero-me um dissidente’.

O dissidente Geneton Moraes Neto, meu amigo Master Asker, nosso grande Mestre Perguntador, nos deixou de repente, envolto num manto diáfano de desencanto, deixando no ar uma última pergunta, que cabe a todos nós responder:

— Por quê?

[1] Todos temos que lembrar. Discurso proferido na diplomação do autor com o título de “Notório Saber em Jornalismo”, outorgado pela Universidade de Brasília (UnB), em 9 de maio de 2011.

* Luiz Cláudio Cunha, jornalista, é autor de Operação Condor: o sequestro dos uruguaios (L&PM, 2008).

Texto reproduzido do site: congressoemfoco.uol.com.br